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Involução

Dizem que as plantas são as formas mais inferiores de vida. Depois viriam os animais, mais evoluídos. E por último viria o ser humano, expoente máximo da evolução no planeta, com consciência e fala e inventos e o polegar que faz tantas coisas (ultimamente serve mais pra dar “joinha”, ou “curti”). Pois eu digo que estamos vendo tudo ao contrário. O ser humano, pra mim, seria a forma mais grotesca de vida nesse planeta. O único que mata por crueldade, o único que tortura, o único que toma mais pra si do que precisa, o único que acha que as coisas do planeta são suas. Ganancioso, violento e ignorante, altamente destrutivo de si, dos outros e do seu habitat, um parasita suicida que se multiplica até matar o hospedeiro. O único que mata para possuir algo que é do outro.

Já os animais seriam mais evoluídos que nós. Vivem em harmonia. Não prendem, maltratam ou matam outras espécies, a não ser que seja para comer, íntegros em seu instinto de sobrevivência e fiéis à sua natureza, sujeitos à uma cadeia alimentar que está além deles, fora do seu controle. Não desejam possuir nada a não ser a refeição do dia e um canto para se deitar. Há os mais territorialistas, é verdade, mas é um algo diferente do homem, do ser humano. É contido em espaços limitados e em equilíbrio com o resto, nada de crueldade gratuita! Em diferentes graus de evolução, também há os que não matam para comer, vivem de plantas. Vivem do que encontram, sem causar destruição. Se eu fosse bióloga eu descreveria isso de uma forma melhor.

Os mais evoluídos de todos seriam as plantas. Não matam para comer nem comem outras plantas. Vivem de nutrientes da terra, água e luz. As carnívoras decerto são as mais próximas dos animais, porque ainda precisam comer insetos. Outras, como as orquídeas, nem de terra não precisam. Só luz e umidade. Certeza que tem erros no meu raciocínio, e decerto maneiras mais belas de dizer o que estou dizendo, falando sobre as particularidades de cada espécie. Mas o importante é poder imaginar que o inverso do que acreditamos pode ser verdadeiro.

Reforço que esse texto é uma ficção romanceada e não científica da evolução. Talvez possa ser olhada pelo lado espiritual, que sei eu?

No meu tempo de criança haviam três reinos: animal, vegetal e mineral. Hoje tem mais coisas e eu não acompanhei com detalhes, nunca mais estudei biologia. Mas tem fungos e outras coisas que eu não lembro. Vírus, dizem, não é ser vivo. Acho que depois das plantas o mais evoluídos seriam os fungos e por fim os minerais. Os minerais tão eternos e sem juízo de valor, não precisam de nada para continuar sendo, são uma manifestação de existência. E deles vêm toda a vida. Água, rochas. Nuvens, montanhas, minérios. Encontro conforto nessa ficção do contrário. Na verdade não estaríamos evoluindo. Estamos involuindo, regredindo. E a sensação de estarmos indo adiante no tempo é porque devido a ilusão causada pelo ponto de vista invertido, de estarmos olhando a vida ao contrário. Estaríamos verdadeiramente voltando no tempo. Voltando de um sonho e acordando para um pesadelo do verdadeiro passado, a barbárie.

No verdadeiro futuro, que fica no passado, seremos animais. Depois plantas. E terminaremos como grãos de areia, rocha, água, vivendo de recordações inscritas em nossa moléculas que já não se replicam. Nem vivos nem mortos, só história e aridez e paz e silêncio. E recordações. Como em Marte ou na Lua. Porque vida, caríssimos, é sempre devorar outra vida para continuar. Quem sabe tenho sorte e na próxima encarnação eu venha como um enxame de abelhas. Se eu evoluir posso ganhar o direito de ser um pomar, depois uma cachoeira e terminar como um grão de areia no meio de tantos bilhões de outros grãos, ninguém devorando ninguém.

Rossana Giansante Bocca
31/03/2020

Hipocrisia

Hipocrisia é uma das coisas que mais me afasta. Mas ninguém está no mundo pra me agradar. Então, nada a fazer, a não ser tentar ser, eu mesma, o menos hipócrita o possível. Isso é bem difícil, porque ninguém consegue viver 100% de acordo com o que acredita durante 100% do tempo. Ninguém é 100% bom muito menos minimamente bom durante 100% do tempo. Podemos apenas continuar tentando. Aproximar os próprios atos do próprio discurso é um projeto pra uma vida toda. E passa décadas e a gente não mudou nada ou mudou alguns míseros milímetros, e o esforço é constante, de carregar um elefante nas costas todos os dias, carregar o ser.
Mas ter que manter uma posição ou um rótulo na sociedade é muito mais cansativo, extremamente exaustivo eu acho, pra mim. E piamente acredito que manter um status, rótulo ou imagem social nos leva à atos e discursos hipócritas. Acho que por isso que eu fico me recusando a me estabelecer como algo fixo e usando de auto-boicote sempre que estou engrenando em algo. Meu padrão é o comportamento errático, por mais que eu tenha me fixado em algumas práticas por anos, práticas diferentes, de religião, de profissão, de tudo, porque manter qualquer posição significava abrir mão de uma liberdade de ser. Uma liberdade de ser que eu nem tinha me apropriado ainda, mal liguei o f*da-se, tenho pouco tempo de experiência nisso, mas realmente não ter reputação nenhuma é um alívio. E ainda assim as pessoa nos imputam uma, a que elas querem, cada um segundo a leitura que fazem da gente. Ora, f*da-se. Pensem o que quiser. Eu já tentei ser tanta coisa, não sou exatamente nada específico, talvez de forma sempre incipiente. Ou se não superficial, porque em algumas coisas eu me entreguei bastante, então profunda mas sem durabilidade. Sou assim um pouco de tudo, como dizia o comediante “especialista em assuntos aleatórios”, e até sei de bastante coisa mas não forma um conjunto harmônico ou rotulável o meu conjunto de, na verdade, não-saberes, porque no fundo não sei nada de forma sistemática ou organizada, nada de forma… formal. Estou tentando fazer a sétima faculdade e já dou sinais de desgaste profundo, mesmo que gostando do curso. O outro curso de formação, suspendido temporariamente, mas sabe-se lá se vou voltar.
Sob determinados aspectos sei muito mas não serve pra nada específico, e quando serve não me adapto. Nem ao sistema, nem às pessoas e o modo delas transitarem pelo mundo. E pra falar a verdade, sob outro aspecto eu sei que não sei quase nada. Mesmo. Por isso sou eterna amadora, amando muito tanta coisa que faço mas nunca exatamente profissional. E na profissão, ou ainda, nas profissões, auto-didata de prática, de aprender fazendo, ah, como eu tenho sabedoria de tentativas e erros, eu tenho de sobra. E continuo errando. Por favor não esperem nada de mim além de um algo sem nome. Com 52 anos não dou sinais de me adaptar ao que quer que seja, a não ser à solidão, demorou mas chegou aceitar ser um número primo. Ímpar. Sem par. Sem par nenhum pra nada. Cansei de procurar pertencimento, eu não pertenço, nem à ninguém nem à lugar nenhum.
Estou muito cansada de tanto blá blá blá. Gente, o ser humano fala demais. Eu falei demais a vida toda, mas já andava ultimamente sem paciência pra conversa. Agora aqui sozinha e trancada em casa eu finalmente encontrei o silêncio e a paz de não ter que falar o tempo todo com alguém.
Agora posso escolher com quem falar um pouco, por Whatsapp, quer seja texto, audio ou chamada. São poucos cuja conversa me agrada por uns minutos. Poucos que não me fazem sentir “ai que preguiça dessa conversa”.
Conheço gente como eu que teve sucesso. Que conseguiu usar a inteligência, tirá-la da posição de potencial. Eu não. Sou só um grande potencial. E uma baciada de fracassos.
Acho que eu nunca quis sucesso, no fundo não, ainda que conscientemente houvesse um esforço nessa direção. O meu inconsciente não quer ter sucesso nesse mundo da forma como ele é muito menos ter sucesso nesse sistema social lamentável que nos levou à situação em que estamos.
Eu voto pelo estabelecimento do Facebook da miséria, vamos mostrar um pouco das nossas misérias, quem sabe uns momentos de mais verdade.
Não estão cansados, tremendamente cansados, desse teatro todo???
ler mais…

Busca

O resumo da minha “viagem” (sóbria) no carnaval é: ao olhar para a situação do planeta, e acreditando que a população atual é tão gigantesca (https://www.worldometers.info/world-population/) e que nosso modo de vida “consumidor” já consumiu mais do que o planeta consegue se regenerar, resolvi dar uma pesquisada nos primórdios da nossa civilização, para ver se entendo como nos tornamos isso, uma espécie parasita, suicida, que condenou fatalmente já o hospedeiro (nosso meio ambiente e todas as outras espécies). É só uma questão de tempo, agora. 
Na ausência de um futuro possível, me voltei para o passado longínquo, para entender, para tentar compreender, o que agora me parece uma tarefa impossível. Aqui neste vídeo dá pra ver que o Homo Sapiens, quando surgiu, conviveu com outras espécies de hominídeos e os extinguiu:  https://www.youtube.com/watch?v=DZv8VyIQ7YU conta a nossa evolução, até aparecermos, cerca de 200.000 anos atrás. Vi outras fontes, mas vamos manter isso simples. Depois disto, nos espalhamos, aqui mostra certinho como nos espalhamos depois que aparecemos por aqui, é como se fosse uma continuação perfeita do vídeo anterior: https://www.youtube.com/watch?v=-6Wu0Q7x5D0

Então pra entender o ser humano um pouco melhor, temos 195.000 anos sem escrita, só sobrou arte e utensílios e fósseis em sítios arqueológicos. Que nos dão pistas, podemos estudar arqueologia e história da arte como amadores, tem muita coisa na internet, podemos sonhar. Conjeturas. Interpretar esses itens arqueológicos encontrados sob filtros de diferentes ciências e até mesmo reunir todas as impressões para ter uma visão de conjunto, para ver qual é a nossa repetição enquanto espécie, talvez para entender melhor o inconsciente humano numa pseudo totalidade, uma fabricação para ver o que é comum a todos nós. Na verdade é só o desejo de saber quem somos, ainda não sabemos. Vamos nos extinguir sem saber quem somos.
Depois temos os últimos 5 mil anos, com alguma escrita em símbolos desenhados, em alguns povos antigos, e depois virou alfabeto e “globalizou”. Pra resumir. Podemos estudar isso, tem inúmeros livros já sobre a história da escrita e das comunicações.
Mas por curiosidade, fui procurar quem escreveu os primeiros textos. Foram os Sumérios. Aí encontrei isso: http://etcsl.orinst.ox.ac.uk/ Se você estiver muito curioso, visite cada botão, as páginas que descrevem como usar o site. É  bom. Mas se quiser cortar caminho, clique em “corpus content by category”. Vai cair nesse link: http://etcsl.orinst.ox.ac.uk/edition2/etcslbycat.php  As três primeiras linhas são só listagens, catálogo. Os textos começam abaixo de “Narrative and mythological compositions” Em cada linha tem link para o texto, escolha as versões em “unicode”. Aí cai em páginas que tem a transliteração e a tradução. Escolha a tradução, a não ser que seja um estudioso do povo Sumério. No primeiro de todos, por exemplo, caímos nesta página: http://etcsl.orinst.ox.ac.uk/cgi-bin/etcsl.cgi?text=t.1.1.1#
Então, o ler, verá que 5.000 anos atrás não éramos tão diferentes assim. Era a respeito de povoar a terra e tomar tudo o que ela dá, de ter bastante água, ele fala muito da água em abundância, e comida e fazer muitos filhos. E foi o que fizemos.
Nesse texto desse último link, tem incesto e estupro, já nesse primeiro texto, isso era considerado normal. O ser tomado como divindade fecunda uma mulher, acho que a primeira não quis pois estava no tempo da “enchente” (menstruada?), depois fecunda a filha que teve com ela, depois a neta que foi a filha que ele teve com a filha e assim por diante por 5 gerações ou 5 gerações, ele fez filha na filha, que era sua neta e fez uma filha na neta, e depois fez uma filha na bisneta e assim por diante, tudo era dele. Era dele a terra que ele chamou de virginal, porque não tinha tido ali nenhum assentamento humano antes, e as mulheres, e a comida e a água, para esse Deus masculino, sucesso era a repeito disso. Sêmem e propriedades. Tudo era propriedade e passível de ser possuído. Algumas dessas mulheres ele forçou, uma limpo o sêmem das pernas. Ele fez vários filhos, determina quem casa com quem e no final do texto pede-se que se reze por ele, devemos louvá-lo e agradecê-lo pela sua fertilidade. Esse é um do nosso ancestral. Uma das mulheres parece ter tido vários filhos com o irmão, os clãs eram pequenos, a familia se reproduzia em si mesma. Esse é só o primeiro texto. Tenho que reler pra ver se não entendi tudo errado. Mas de repente deu uma preguiça de ir ler tudo. Vou ler mais alguns, uns poucos e é só. Para conhecer o homem primitivo basta olhar para o homem moderno. Não mudamos nada. Ainda estamos fazendo o mesmo. Ainda é a respeito de poder e propriedades. Ainda estão tomando a terra. Ainda estão estuprando.
Hoje escrevi no Facebook: “Não vamos parar a tempo porque o tempo de parar já passou e continuamos em marcha firme, sem intenção de mudar. Não tem como despertar um por um, ensinar quase 8 bilhões de pessoas, que estão literalmente dormindo. Não tem emprego para todos, não tem comida para todos, logo não haverá água para todos, em alguns lugares já não há. São as grandes indústrias e corporações que deveriam parar de fabricar, mas não vão, porque a sua meta é “aumentar o crescimento, aumentar as vendas“. E nem sabemos mais sobreviver sem esse modo de vida, “eles” vão fazer o que? Dar um lote de terra pra cada um se virar? A esta altura do campeonato? Alguém dá alguma coisa pra alguém? Então já estamos desenganados, enquanto espécie, e nosso meio também. Somos parasitas e já matamos nosso hospedeiro. Acho que a revolução industrial decretou nosso fim séculos atrás. Mantenha-se acordado para assistir o fim de olhos bem abertos, somos as gerações que nasceram para assistir o ocaso da humanidade e do mundo como o conhecemos.”

Muito Antes de Physis e Arché

Este post se destina a guardar um determinado grupo de posts escritos no Facebook durante o carnaval, para que eu possa reler novamente em outro momento.
“Quando vemos áreas intocadas pelo homem, vemos que todas as espécies estão em harmonia, cada uma desempenhando uma função no ecossistema para mantê-lo, para manter a vida, de forma que possam sobreviver. Onde o ser humano chega, é tremendamente destrutivo, *usa* a natureza para explorar, retira até o talo sem preservar, sem se importar com as outras espécies, prejudicando a sobrevivência de todas, muitas ele mata para torná-las em elementos de consumo, até extinguir. Desta forma estamos destruindo nosso habitat e tudo que permite que continuemos a viver. Somos uma espécie burra, suicida e arrogante, porque ainda clamamos ser o topo da evolução de um planeta, que sem nós, seria um paraíso de abundância e paz. Somos as espécie mais tosca e destrutiva, nossa função no ecossistema é de parasitar e exterminar. Não fomos expulsos de paraíso nenhum, ainda estamos nele, destruindo-o vorazmente. Na verdade, nós é que estamos expulsando o paraíso.” 23 de fevereiro às 07:50

“A sexta extinção em massa está em curso, desta vez o homem é o asteroide. Nos últimos 40 anos exterminamos 60% da vida na terra, para consumir. Em uma década não terá mais água e comida para tantos bilhões de consumidores. Se tanto. Já é tarde demais. Os recursos destruídos levariam pelo menos 5 milhões de anos para se recuperarem, SE SUMÍSSEMOS NESTE SEGUNDO. Somos aqueles que nasceram para ler mais…

E se de repente pára?

~Deitada, quieta, no escuro, o coração bate tão forte que se faz sentir. E se de repente para? Um musculinho de nada, batendo teimoso, por décadas. E se de repente para? Essa maquininha, por que funciona? Uma bolota de carne, caída no mundo, sem manual. Ciente de que existe. Para que? Vá você dizer com certeza o que está fazendo aqui, por quê isso eu não tenho para dizer. Estou aqui. Estou fazendo, mas o que? Estou só pulsando. Só? Estou só. Na verdade nem isso. Eu só estou. Estou. Estou esse corpo, essa massinha de carne, com esse negocinho que pulsa. E se de repente para? Que pode ele diante do vendaval que assopra, da faca que fura, da terra que gira? Que paúra dessa fragilidade! E se de repente para? Coração, por favor, não bata assim tão forte, tão de mal jeito, que me faça percebê-lo, que me lembre que estou assim tão viva, que você bate assim tão perto da pele, tão fácil de rasgar, tão fácil de estragar. E se de repente para?

Physis e Arché, Último Capítulo

(ou A Lenda do Uno, ou A Crônica do Lavoisier Entediado. Feliz 2020!
~Era uma vez o Uno. Mas ser uno entediou-o profundamente. Nada de novo acontecia. Explodiu-se em trilhões de fragmentos, e seus pedaços passam a eternidade buscando a integridade, sem nunca alcançá-la, porque quando um pedacinho se lembra de onde veio e para onde vai, tudo já mudou novamente de lugar. Então ele se tranforma no processo e é sempre tomado novamente pelo esquecimento, porque o reencontro com o Uno não dura um segundo, e lhe remete ao tédio. Então o Uno ainda é uno, porque mesmo tão fregmentado, não teve como desagregar-se. Mas cada fragmento sempre pode esquecer-se e reviver novas velhas histórias, como se tudo fosse novo, novamente. Eternamente dormir e acordar, recordar-se e olvidar-se e adormecer novamente, para que jamais fique preso no tédio, jamais novamente. Todos os fragmentos ligados por um fio, para que tudo que cada um faça, se reflita no resto como novidade, garantindo que ele mesmo não recaia no tédio novamente, de ser um só, que nada tem a fazer. Na solidão de ser Uno, precisou ser zilhões de pedacinhos, para cada pedacinho ter a ilusão de que tem outros fragmentos para interagir. Mas coitados, são todos aspectos e manifestações deles mesmos, ou ainda, dele mesmo, e tão logo percebem, voltam ao tédio. Para serem brevemente reciclados no processo de esquecimento chamado enganosamente de “morte”. Tão apenas para se manifestarem outra vez, de outra forma, e viver novidades com outros esquecidos fragmentos eternamente reciclados.

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