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Imagem de ilustração: O Conselho Ecumênico, de Salvador Dali http://totallyhistory.com/the-ecumenical-council/

Querida leitora, querido leitor, esse é um texto sobre ecumenismo, da perspectiva da minha incursão pessoal nessa prática.

A investigação do enigma de ser, para mim, já passou do estágio do QUEM sou eu. Venho nesse momento estar provisoriamente (sempre provisoriamente e tão precariamente) num estado de “O QUÊ sou eu?”. Já de antemão sabendo que nunca o saberei completamente.

Isso, se é que existe um EU nem vou entrar nisso agora. Se o eu é uma ilusão ou não, pela via religiosa ou psicanalítica, vamos partir do pressuposto que eu vou chamar de “eu” esse amontoado de causas, condições e circunstâncias ambulantes que usam como veículo de trânsito esse outro amontoado de células que são a minha pele e tudo que está contido dentro dela, inclusive até as células de outros seres que estão dentro de mim, por exemplo a flora bacteriana, que dialogam com o cérebro por sinais químicos). Essa massa de coisa aqui que tem um provisório documento de identificação RG válido apenas até o segundo da minha morte.

Tudo que você irá ler aqui hoje é um grande SE, um enorme SE antes de cada frase, de cada verbo, de cada oração. Há momentos que eu falo tomando determinadas coisas como certas para efeito de progredir o raciocínio, senão seria tudo um amontoado de perguntas esperando que a ciência venha a comprovar o que quer que seja. É que depois dessa minha não-breve introdução, eu coloco, a título de registro do meu processo, um texto que produzi ontem, tentando compreender manifestações mediúnicas. Veja, eu não sei nada, eu estou perguntando, questionando, tentando articular. Esse texto é um fracasso como texto.

(pausa para lembrar que estou tratando aqui do subjetivo e se você só admite coisas que a ciência comprova, por favor, NÃO prossiga com a leitura, aqui não tem isso).

Na verdade, outro dia, em outro texto meu, eu faltei com a verdade. Eu disse algo como que eu já havia investigado tudo que podia estar “errado” comigo, de coisas que já me disseram que eu sou ou posso ser, e de coisas que já pensei sozinha, de possibilidades do porque algo parece estar errado comigo desde que eu era muito pequena. Mas há uma coisa que eu não investiguei. Se tenho ou não realmente mediunidade. Isso é uma que me ocorre agora, com certeza eu tenho milhares de coisas em mim que posso investigar no futuro, ou mesmo a partir de agora.

Ora, agora, depois de mais de quatro anos de análise eu já tenho um esboço das coisas que eu manifesto que parecem estar dissonantes com uma suposta normalidade. O resultado é que eu não acho que tem nada exatamente errado comigo, que já tentaram nomear como patologias e outras tantas coisas. Eu acho que, como muitos, eu sou apenas uma pessoa incompreendida, intensa e com traumas de infância. Mas isso não me define, isso é um microscópico fragmento do que eu venho a ser,  eu venho a ser muitas coisas. Aqui e agora e no futuro, bem como vim a ser muitas coisas no passado, que já morreram. Por exemplo, aquele meu eu que estava matriculado no colégio de freiras em que estudei, aquele eu já morreu. E tantos outros. E no entanto, os cadáveres estão todos aqui dentro, de mim. Ora sem nem mesmo as minhas células ainda são as mesmas de 7 anos atrás.

O que eu não investiguei, que acredito que se faz necessário para mim nesse momento, é a questão da mediunidade. Será que sou médium? Será que não? O que é ser médium? O que isso implica? NÃO SEI. Apenas comecei a aprender. Na minha ignorância ser medium é alguém que tem uma capacidade espiritual de ligar, vamos colocar assim, “o mundo dos vivos” com “o mundo dos mortos”. Alguém capaz de conectar com um plano do sagrado que é da ordem do invisível, e tornar isso aparente através de manifestações. E isso não é para ter “superpoderes”. Na verdade isso eu já aprendi, que o médium tem a missão de ajudar as pessoas, e que ter mediunidade, longe de ser algo que o coloca “acima” dos outros ou lhe dá diferenciais de poder, ao contrário, o medium está a serviço dos outros pois ele tem, vamos assim dizer, “contas a pagar”. Não é um castigo, seria um resgate cármico, um modo de praticar o bem, praticar a caridade, uma oportunidade de praticar o bem para alívio de seu próprio carma e alívio do sofrimento no mundo, e que trás até muita “dor de cabeça” pra quem tem mediunidade, mas isso eu não sei se é correto ou se é uma visão pessoal da pessoa que me falou isso.

Isso eu entendo, sobrea a missão de caridade e também me foi dito que existe diferentes tipos de mediunidade e que todos somos medium em algum grau e podemos e devemos praticar o bem e a caridade, de diversas formas. E isso também faz sentido para mim. Uma medium me disse uma vez que não é preciso emprestar o corpo, por exemplo, para receber espíritos desencarnados para praticar a mediunidade. Esse é um tipo apenas de mediunidade. Ela disse que é possível fazer isso oferecendo a escuta à uma pessoa, e aí por exemplo entram todos os profissionais da psiquê, que vão ajudar as pessoas através da escuta que oferecem aos que sofrem. Ou mesmo ouvir um amigo, isso é praticar o bem e a caridade. Que há pessoas que praticam a mediunidade visitando doentes em hospitais e rezando com eles, é um tipo de mediunidade. Outros que tem mais condição financeira por exemplo, fazem doações (me lembro de Dana Paramita!!!) Ela enumerou diferentes formas de praticar essa sensibilidade ao mundo espiritual e essa missão de praticar o bem, a caridade.

Quase na totalidade isso está de acordo com o Budismo, e com outras religiões.

Eu posso dizer que sou Budista. Porque acredito em Buda e nos ensinamentos dele e procuro praticá-los. Mas digo que não frequento mais o Zen Budismo, não pertenço a nenhuma Sangha no momento. Mas posso dizer que pratico Zazen todos os dias e faço a cerimônia da Tchoka no mínimo uma vez na semana, a longa, a completa. E que todos os dias eu faço a recitação dos sutras do livro de sutras, não todos, mas os 3 primeiros da Tchoka longa ou os 4 primeiros, e também a recitação de dharanis do jundô, como o Emmei Jukku Kannon Gyo, o Jizo Kompon Dharani e o Shariraimon, porque eu tenho essas imagens. E também faço o Dharani do Buda Amitaba. Que é o quadro que tenho no meu altar. E dedico os méritos para uma pilha de nomes de pessoas vivas e mortas, e meus antepassados. Leio o Dhammapada. E outras coisas do Budismo. Então minha prática ocorre até mais do que quando eu frequentava o Zen. Mas não sou Zen. Por uma série de motivos. Não me sinto mais pertencendo à essa linhagem no momento. Pode ser que isso mude um dia, não sei. No momento acho impossível. Se eu voltar à uma Sangha Budista, será em alguma linhagem esotérica. Mas claro que amanhã algo pode me mostrar que estou errada e eu mudar de opinião.

Mas se alguém é Budista, tem que ter uma Sangha. Sim, o refúgio é nos três tesouros, e não dois. Mas minha Sangha são todas as pessoas com quem me relaciono. E com elas, em vários diferentes grupos eu pertenço, eu tenho experiência de Sangha e aplico o que aprendi nos anos de Zen Budismo e procuro agir como se deve agir com uma Sangha. Minha Sangha são as pessoas, cada pessoa que chega perto de mim é minha Sangha. Posso contar com muitas delas e fazer por muitas delas. Teoricamente minha Sangha tem 7 bilhões de pessoas, é o Planeta Terra, eu só consigo ver assim no momento.

E não sou só Budista. Eu também gosto das práticas da Umbanda e até agora eu não encontrei nada na Umbanda que agredisse o Budismo. Em mim os dois andam juntos e em paz. Mais até, se complementam. Eu me considero plenamente e funcionalmente Ecumênica.

Mestre? Tudo é meu mestre. Tenho vários mestres, vários, religiosos e não-religiosos, digo que o Dharma encontra sempre um jeito de falar comigo até quando a lagarta come minha planta no quintal. Pra mim o Dharma não está preso, atado, limitado à uma denominação religiosa, senão eu estaria dizendo que as outras estão erradas. O Dharma, essa verdade última, permeia tudo que existe e tudo me ensina agora. Tudo. Me interessa o diálogo entre as diferentes denominações e as diferentes religiões. Um diálogo real. Não me interessa pertencer à uma religião que não conversa com outras denominações ou religiões. Meu ecumenismo não é apenas de “aceitar” que outras religiões existem, é de sentir que em todas as religiões o Dharma se manifesta, e em todas encontraremos gente boa, gente ruim, o Dharma correto e o que não pode ser tomado como Dharma correto (se é que existe um Dharma que não é correto, eu não sei sobre isso o suficiente). Em tudo encontramos pessoas que causam sofrimento e outras que trazem alívio, e em tudo encontramos ensinamentos que se aproveitam e os que não devem ser considerados ensinamentos. Acho que cada um andará pelos caminhos que lhe bem aprouver.

Uma vez fui num centro de umbanda e uma moça, que não estava incorporada, foram palavras dela portanto, fez uma abertura antes da sessão, e o que eu ouvi foi o puro Dharma, foram palavras e idéias e conceitos que eu só havia visto antes no Budismo, e ela usou outro contexto e outras palavras mas a Verdade estava ali, eu não sei dizer como, mas eu reconheci.

Se me pedir pra dizer o que é o Dharma eu não sei, mas quando ouço até no silêncio da árvore que balança, eu reconheço. Na minha ignorância eu não sei transmitir o Dharma mas sei reconhecer quando se manifesta, provavelmente só em algumas coisas, claro. Não que eu tenha poder de reconhecer o Dharma em todo seu esplendor e completude de manifestação, mas eu muitas vezes eu o percebo. Eu tenho noção da minha ignorância.

E sei que ter a Sabedoria Completa (um conceito do Budismo) é algo que eu nem compreendo, quanto mais ter. Não me arvoro ser iluminada ou sábia. Eu sou só uma curiosa, e detentora de grandes, gigantes dúvidas. Mas fiz meu movimento de libertação e recuso percorrer o meu Caminho numa denominação religiosa fixa. Por diversos motivos.

A vida inteira ouvi: “você é médium, enquanto não desenvolver a mediunidade sua vida não vai pra frente, tudo dará errado.” No momento estou investigando isso, mas digo que quem abriu campo para que as coisas começassem a “dar certo” foi a psicanálise, porque sem fazer análise nem o desejo de praticar zazen eu estaria sustentando. E acredito que muita coisa “dá certo” por causa das orações que faço diariamente e das orações que fazem por mim, os Budistas e os não Budistas, eu creio no poder da oração. Mas sem análise, nem rezar antes eu dava conta, de conectar com o Sagrado com uma entrega plena. Ter um altar e rezar, você pode considerar apenas um sintoma, mas pode considerar um trânsito pelo meu enigma também (inclusive o espiritual), que eu não tinha antes, eu dependia da reza de outros.

Já tive incursões pela Umbanda e Espiritismo antes do Budismo. Em todas as religiões que passei até hoje, parece que eu estava dormindo e eu estava lá em busca de socorro, como coitadinha, e em busca de certezas, em busca de uma forma de me “consertar”, e isso acabou. Agora o que me move é outra coisa. Vamos deixar essa “outra coisa” que me move EM ABERTO.

Continuo estudando o Budismo em casa e continuo com minha prática. Um dia quero também conhecer denominações Budistas esotéricas, tem mais a ver comigo, um  dia quem sabe, mas não garanto. Eu estou gostando muito da umbanda e do centro que encontrei. No momento, estou investigando se tenho mesmo mediunidade, numa casa de Umbanda. Quero aprender o que é Umbanda e o que é mediunidade corretamente. E ver se isso ecoa em mim.

Não estou desenvolvendo a mediunidade ainda não. Estou participando de meditações que são como que exercícios mediúnicos, para ver se alguma mediunidade, de algum tipo se manifesta em mim, tudo está no campo da investigação e isso me parece adequado.

Para mim tudo ainda é muito turvo porque o que manifestei, não sei se é apenas imaginação ou fantasia da minha mente criativa, se é algo do meu inconsciente que aflorou numa dinâmica do grupo, se é algo de algum espírito, se é algo que está na minha herança psíquica (herança filogenética dentro da psicanálise), se são traumas ou experiências transgeracionais, se é algo do inconsciente do grupo que se ligou com algo do meu inconsciente e manifestamos juntos, co-surgindo, se são coisas atávicas, se é algo da ordem da pulsão, ou se é algo relacionado com instinto, ou então se sou médium que manifesta animismo, eu não sei, eu realmente ainda não sei nada. E tem tantas outras coisas que estas manifestações no exercícios meditativos mediúnicos podem ser, pode ser muita coisa.

Não é uma questão de fé para mim, apenas, é uma questão de investigação mesmo, de investigação de fenômenos meus enquanto ser, que fazem parte do meu enigma pessoal. Eu gosto de ir lá, me sinto bem. É uma das Sanghas a qual pertenço. Outra por exemplo é o Instituto de Psicanálise em que estudo.

Enfim, depois de ir à uma dessas reuniões de exercícios de mediunidade, eu escrevi ao grupo falando de minhas dúvidas. Eu trouxe o texto, os nomes das pessoas estão preservados e não há nome do local obviamente, porque não interessa pra ninguém. O que interessa é o tipo de questionamento que brotou em mim. Como eu disse no início, tudo está dentro de um grande SE, mas faz parte da forma como estou enxergando meu enigma pessoal no momento. Tem coisas no texto abaixo, o que enviei para o grupo, que não tem se espera ter comprovação científica, e pode claro ter algumas besteiras  de enunciado das coisas que estou aprendendo sobre o inconsciente, tudo bem, faz parte, eu estou aprendendo e não falo com discurso de quem tem respostas, mas do erro e das dúvidas. Foi isso que escrevi, após o exercício de mediunidade. Fica a pergunta sobre a natureza das manifestações, que é só um jeito de perguntar: O QUÊ SOU EU?

Olá, bom dia. Quanto a meditação de ontem, eu estou pensando muitas coisas e gostaria de compartilhas pois preciso de clarificação. São muitas questões então vou tentar restringir só a uma no momento, a que me parece mais importante, que o X. trouxe aqui. É a questão de saber se o que nós sentimos durante os exercícios de mediunidade (pode chamar assim?) na sexta a noite vem da nossa
1) imaginação (fantasia / criatividade / representações subjetivas mentais/imagens mentais) ou se essas “coisas” são
2) os tais arquivos anímicos sendo acessados (desta vida nossa ou de outra) ou se o que percebemos / notamos / sentimos vêm de
3) guias espirituais ou entidades, que querem passar uma mensagem, etc.
Eu acho que é bem colocado a questão do melindre aqui, não dá pra ter melindre se a gente quiser crescer espiritualmente. O Y. disse que na Umbanda vamos emergindo *JUNTOS* então se o que eu senti é ratificado por outros tem mais chance de saber se o que “senti / percebi” é algo meu ou está na “realidade” como acontecimento espiritual.
Mas a questão entre separar o que é nosso e o que é do outro é algo muito delicado, eu digo isso porque estudo psicanálise e uma das questões que tenho trabalhado nas aulas, nas questões que faço, é a pergunta sobre o inconsciente: o que acontece, o que vem dele, o que é meu e o que é fruto de interações ou influência de algo externo? Então vejo que tem esse aspecto aqui na Umbanda também e muito me interessa.
O que aprendi* na psicanálise que o inconsciente não tem limite.
Eu concluo: tudo influencia e é influenciado pelo inconsciente.
Ou ainda, vou tentar clarificar. O nosso inconsciente não está contido dentro da nossa pele, a pele não é o limite do inconsciente, nem vou entrar na questão da separação entre mente e corpo, pra efeito dessa conversa vou apenas partir do principio que a mente é o corpo, temos neurônios no coração, no intestino, inscrições no DNA de cada célula inclusive como reagimos diante da fome, que passam de geração em geração, estou falando de traumas transgeracionais, ou seja, se eu passar um “perrengue” muito forte nesta vida, ou ainda, o que é mais correto, vários “perrengues” similares de situações causais similares nesta vida, eu crio uma dinâmica comportamental que passa de geração em geração e inclusive deixa inscrições de como vamos reagir até mesmo no código genético.
(??? confere ???) Então, paciência um pouco que vou levar o raciocínio até que todos compreendam minha pergunta.
Por exemplo, o fato de eu desembestar a comer feito louca pode ser algo meu, desta vida. Mas pode ser um trauma transgeracional que veio passando de geração em geração, ou pode ser já uma inscrição no meu DNA de como meus antepassados reagiram quando passaram fome. Ou pode ser só verme meu mesmo!! (E pode ser ansiedade também, ou um sintoma psíquico, uma neurose)
Ou seja pode ser meu, físico ou psíquico, ou ainda fisico-psiquíco (se eu acredito que corpo-mente não tem separação), ou pode vir de outros, por dinâmicas comportamentais e pode estar ou não na inscrição genética (há controvérsias). Ou posso estar com um “encosto” ou sob influência de um espírito faminto/ser insaciável.
Ah, mas o que isso tem a ver com ontem? Vou explicar. O conceito de trauma transgeracional se aproxima (não é a mesma coisa não) do conceito de karma de família, por exemplo, é uma outra via de compreensão. Já chego lá. Isso é uma das coisas. Mas eu quero chegar é na questão da linguagem simbólica do inconsciente e a tentativa de saber o que é nosso e o que não é.
Teoricamente nada é genuinamente nosso, nosso inconsciente é uma construção de tudo que já experienciamos nesta vida, e envolve a interação com outros, que nos trouxeram realidades já existentes. Isso para os que acreditam que o que garante nossa individualidade é um inconsciente que é “só nosso”. (Eu acho, se entendi direito mas tenho que estudar mais isso, muito)
Para quem acredita que existe um inconsciente coletivo que acessamos o tempo todo com o qual trocamos conteúdos diversos o tempo todo, então não existiria (???) um inconsciente [puramente] individual. (isso eu não estudei ainda não – me falta informação para fazer uma afirmação mais assertiva e correta, mas o objetivo aqui é apenas abrir o campo da possibilidade de que o inconsciente não é só meu, outra hora vou buscar informação de como isso funciona)
Quer seja nosso inconsciente individual ou coletivo ele fala uma linguagem simbólica. Se acreditamos em outras vidas, então há neste inconsciente até os conteúdos de outras existências.
Eu estou conseguindo imaginar assim, eu Rossana, e não sei se estou certa:
Temos um inconsciente individual, das coisas que vivi nesta vida, experiências que são só minhas, mas ele tem também experiências transgeracionais, da família que cresci e estas experiencias da qual descendo afetaram a forma como percebi, interpretei e reagi às essas experiências que são só minhas. E as vidas anteriores que (vamos colocar assim) hipoteticamente tive, outras existências também estão na bagagem desde inconsciente e também afetaram como eu percebi, interpretei e reagi às essas experiências que são só minhas desta vida e às experiências que o corpo e a criação trouxeram da família. Minhas experiências, as da família e das outras “minhas” existências “sequenciais” (quero evitar usar a palavra reencarnação*), da qual minha consciência descende, essas três coisas trabalham juntas dinamicamente no inconsciente criando novos conteúdos o tempo todo em função das trocas que os 3 juntos (que são um só) fazem com o inconsciente coletivo, o tempo todo. Então tudo isso é pra demonstrar como tudo está bem misturado com diferentes origens e graus.
Porém, a linguagem de tudo é simbólica. A linguagem da vida é simbólica. Tudo na mente vem por representações, isso é do ser humano. Pessoas que não conseguem simbolizar ou encontrar representações, são psicóticas, estão fora da realidade, tudo para elas é literal, literalmente real (se eu entendi direito).
Onde eu quero chegar? Um pouco de paciência, vou juntar todas as pontas.
Primeiro, o inconsciente é estruturado *como* linguagem, e isso quem disse foi Lacan. A base da psicanálise é o método interpretativo do inconsciente, que vem através das representações, de cadeias de representações que o inconsciente tem, que pode ser acessado pela fala da pessoa (nas repetições, nas omissões, nos atos falhos, nas piadas) e pode ser acessado pela interpretação dos sonhos da pessoa, e etc.
Mas ocorre que a linguagem que um inconsciente fala, de uma pessoa é só dela, é aí que vem o trabalho interpretativo. Por exemplo (um exemplo a GROSSO MODO): se alguém está no divã e fala muito de queijo, uma das suas repetições é o assunto queijo por exemplo, o analista vai percebendo pela fala do analisando o que mais está associado com isso para tentar entender o que o queijo significa para aquela pessoa. Pode descobrir que tem algo a ver por exemplo com a avó, que fazia queijo com o analisando no colo quando ele era bebê e isso traz outras significações, como as brigas que avó tinha com o avô, quando ela estava com ele no colo fazendo o queijo. Queijo pode estar associado com briga para esta pessoa. Isso é um exemplo grosseiro, ok? Já para outro analisando, queijo pode ser outra coisa, pode estar associado com amor porque o melhor momento do dia pra o outro era quando o pai chegava em casa e dava queijo polenguinho para o filho ouvindo música de violão. Então para esse, queijo é amor. É a relação com o pai e representação da lei, por exemplo.
Calma que vou chegar nas representações espirituais que é minha dúvida.
Vou passar para algo concreto, porque a parte de possibilidades já está representada.
No exercício mediúnico de ontem tive imagens mentais e tive também sensações corporais e acho que espirituais, mas não consigo discernir. Por exemplo, em um dado momento, no final, me senti como grávida e de repente tive um choro.
Vou falar só das significações que me ocorrem só quanto a isso pra simplificar:

1) tenho um altar budista e nele rezo por muitas pessoas todos os dias, tanto vivos quanto mortos. No momento estou rezando para uma conhecida que morreu de parada cardíaca durante o parto, dia 27 de setembro agora. Seria o que aconteceu comigo a manifestação do espírito dela que está triste por ter ido “antes do tempo”, tipo, antes de poder criar seu filho, ela estaria chorando seu filho que nunca carregou? Tipo eu manifestei a dor de um espírito que acabou de desencarnar?
2) uma de minhas filhas não fala mais comigo, isso me entristece, naquele momento seria o que aconteceu comigo algo meu, da minha psiquê, seria eu chorando a minha filha aparentemente ou temporariamente perdida? Eu me lembrei dela no momento do choro. Ou o espirito da conhecida se manifestou espiritualmente do meu lado e isso mexeu também com meu inconsciente, ou seja, uma identificação minha, de algo meu com a vibração triste dela, entramos em afinidade, duas mães chorando seus filhos?
3) no meu altar eu rezo também pela avó da minha avó materna, que era uma índia que foi sequestrada, laçada no mato por um português, e levada para uma cidade para se casar com ele e ter seus filhos, foi até batizada com outro nome. Mas o que o português não sabia, ou sabia e não se importou, era que ela tinha o índio dela e vivia com ele e tinha filhos com ele. Portanto essa antepassada minha também perdeu seus filhos e com certeza chorou seus filhos que ficaram para trás na floresta. Então o que aconteceu comigo foi uma expressão desse trauma que veio por gerações (que afetou a relação dela com os filhos do portugues, do qual descendo), uma expressão de algo que está no meu DNA, seria anímico portanto, pela via corporal, que deu vazão naquele momento espiritual? Ou isso encontrou eco também na minha tristeza pela minha filha perdida e também estava ali minha conhecida morta de parto cujo nome está no meu altar? ou essas 3 coisas entraram em sintonia aquele momento?
4) mas e se for um arquivo anímico pela via espirutual, tipo de outra vida minha, sei lá, morri grávida?? Oi fui muito maternal, tive muitos filhos? algo do tipo, que não tenho como lembrar?
5) ou outra coisa relacionada com algum de vocês, com esse inconsciente coletivo, de ordem espiritual, que não tenho como saber?
6) algo do meu mentor espiritual?
7) todas essas coisas juntas que encontrei representação na imagem/sensação de “gravidez” ?
8) e se eu tiver só fantasiando tudo isso e estou apenas “grávida” de uma nova fase da vida e tudo isso é uma metáfora da minha mente para um novo eu meu que está se formando?
9) Ou era outra coisa que não faço ideia, e gravidez representa algo que eu não soube interpretar?
Entendam que para mim é bem difícil, porque tudo está relacionado, pode ser tudo isso e mais um infinidade de outras coisas que eu nem faço idéia por ignorância da teoria da umbanda e da espiritualidade.

Portanto, como compreender uma simbologia sendo que para mim gravidez é uma coisa, para a amiga morta é outra, metaforicamente pode ser outra e por aí vai? Tenho que confiar na interpretação do X. e dos outros para ver que conjunto se forma e o que toma consistência.
O que eu sei de objetivo na sequência do que “senti”:
O X. pediu que evocássemos em nós a misericórdia.
O Z. disse o nome da pessoa que precisava de vibrações de ajuda espiritual.
Eu pensei numa divindade budista, o Bodhisattva da compaixão (é tipo como um santo para os católicos) chamado Kanzeon Bosatsu para os japoneses, ou Kannon, é outro nome dela, ou Kuan Yin (na China) ou Avalokitesvara (na índia) é a divindade com maior expressão de misericórdia e compaixão no budismo e acho que no hinduísmo também, não tenho certeza, que assume forma de homem ou mulher dependendo do país ou seita que a representa, com diferentes nomes na ásia. Meu altar eu tenho a imagem dela.
Quando foi pedido para enviar misericórdia para a pessoa mencionada, eu comecei a rezar o sutra dessa divindade de misericórdia e imaginar esse homem mencionado como que deitado ali no chão no meio de nós, envolto no manto de Kannon e sendo socorrido espiritualmente por essa divindade, isso foi coisa que eu propositalmente imaginei, para envolvê-lo mentalmente em misericórdia espiritual e ajudar assim enquanto eu rezava o sutra mentalmente, eu representei o socorro assim. Mas logo veio uma imagem mental que eu não fiz de propósito, veio a imagem que eu estava ali deitada com ele abraçando ele. E em seguida ele estava dentro de minha barriga, e eu era o manto de misericórdia que o socorria, eu coloquei todo meu amor ali.
Nesse momento o X. disse que linhagem de Maria estava presente. Há pessoas que sincretizam Kannon e Maria, Nossa Senhora, pois ambas são expressões supremas de compaixão e misericórdia. Eu evoquei Kannon e X. disse que a falange de Maria estava presente, então ele captou algo ali coerente com o que eu estava fazendo. Maria é a mãe que também chorou seu filho. É mãe de todos, mãe espiritual, mamãe Oxum.

Mas depois o meu bebê já não era mais ele, o homem sofredor objeto de nosso socorro espiritual, eu ainda estava grávida mas eu estava de volta na cadeira e meu bebê era minha filha, e parecia que eu estava grávida dela de novo e eu pude chorar sua ausência e mentalmente eu chamava ela de volta para mim, “volta pra mamãe filhinha” (esta filha que não quer falar comigo). Então entrou algo meu no exercício mediúnico.
veja que complicado.
Eu realmente tenho um longo longo caminho pela frente para entender minhas manifestações.

(uma das participantes viu uma criança, que tentou passar uma mensagem para mim, mas como a participante também está aprendendo, ela não compreendeu direito a mensagem, não chegou clara.)

Fica aqui um exemplo da minha juventude. Quanto eu tinha 18 anos eu morava em um pensionato em São Paulo e eu fiquei meio “esotérica” e mística e resolvi ler tarot para as colegas. Fui ler sobre o assunto, aprendi, comprei o tarot e dava leituras. Eu acertava bastante. Um dia eu estava lendo para uma amiga e não consegui controlar o meu choro, deu um choro de repente, e eu só repetia que sentia saudade do meu avô (que tinha morrido 2 anos antes) eu só queria meu avô e chorava por ele. Ninguém entendeu nada, nem terminei de ler tarot pra ela, ela ficou ali me consolando e logo então tocou o telefone. A mãe dela avisou que o avô dela havia acabado de morrer. Todo mundo ficou muito assustado comigo e eu mais ainda, e nunca mais li Tarot. Eu havia captado a morte do avô dela de alguma forma e o sofrimento dele mas eu achei que algo era meu! Do meu avô! Então meu inconsciente que recebeu uma mensagem espiritual sentiu fisicamente como algo meu, real, porque eu sintonizei com algo que havia em mim que era da mesma natureza que a da mensagem que chegou.
Então o caminho para deslindar o que é meu e o que é do outro, é longo, porque o inconsciente me parece ser coletivo e o que acontece com o outro, temos registro em nós também, tanto com conteúdo desta vida, como possivelmente de outras existências nossas, como dos antepassados, como nas representações que fazemos de tudo que vemos, na linguagem simbólica da mente. Tudo está relacionado.

Bom, o texto todo, com ou sem minha própria citação não chega a lugar algum hoje, nem tem conclusão. É registro do processo e nada mais. Gostaria apenas de deixar uma observação de algo que ouvi de uma entidade, que na espiritualidade (dimensão espiritual) não tem separação, todos trabalham juntos, fazendo o bem (de todos os centros de umbanda, de todas as religiões e denominações, todos os guias e orixás e divindades, etc.) No mundo espiritual não tem religião, só tem espiritualidade e seres trabalhando dia e noite pelo benefício de todos os seres. Isso me parece muito correto. O ecumenismo é em mim uma realidade, inclusive, com participação do Cristianismo, que hoje não coube detalhamento).

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