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Gostaria de trazer para cá algumas coisas que escrevi como comentários em um post de um dos meus professores de psicanálise, meu caro Professor Alessandro Alves, para que conheçam um pouco o tipo de coisa que passa na minha cabeça quando eu penso, e de como se dá minha dificuldade de entender conceitos, de tudo. É a bênção e a maldição, pois na medida em que consigo pensar muitos aspectos de algo que eu vá estudar, por exemplo, ao mesmo tempo me impede sempre de chegar numa conclusão definitiva. Mas de certa forma isso também é uma bênção, se eu consigo sustentar o estado de dúvida. Eu não li Sartre, mas obviamente estamos todos atravessados por “frases de efeito” publicadas no Facebook, de diferentes pensadores, ficando até difícil saber se os autores são mesmo os que as frases são creditadas. Digo isso porque vi esses dias que “A dúvida é o preço da pureza” e a frase está creditada a Jean Paul Sartre.

Oras, não li Sartre, mas gosto de brincar, não li mas parece que já gostei. Por isso busquei no Google algo que me explicasse melhor essa frase, e encontrei: http://www.assepe.org.br/site/categorias/reflexoes-cotidianas/282-a-duvida-e-o-preco-da-pureza
Diz lá:

“Essa frase emblemática do filósofo existencialista Jean-Paul Sartre deveria ser mais observada em nossa sociedade. Isso porque o questionamento é uma das bases da autoconstrução humana e é um ponto fundamental do relacionamento ético. Esta idéia pode parecer paradoxal, mas o paradoxo advém apenas de uma análise superficial do pensamento acima transcrito.
A ausência de questionamento implica, necessariamente, na dogmatização das idéias. E é justamente este o ponto de origem dos diversos problemas humanos: quando não se duvida, crê-se que a verdade já tenha sido alcançada e neste caminho tal verdade é a única com exclusão de todas as demais. Assim, não é necessário aprender com o outro, não é necessário perceber que o outro tem algo ensinar, pois tudo o que se conhece é certo e incontestável. Daí a origem da intolerância, das guerras religiosas, dos embates ideológicos, dos conflitos étnicos, todos tendo por ponto de partida o engessamento da capacidade humana de aprender e ensinar, de vivenciar o novo como uma experiência indispensável à construção individual e social.
Quando não se pergunta, por outro lado, é-se manipulado, conduzido como uma ovelha. A mídia cria necessidades irrelevantes e dispensáveis, mas cegamente desejam-se os objetos oferecidos. E tudo isto, aos poucos, torna os seres humanos cinicamente passivos perante as injustiças e distorções sociais, reproduzindo comportamentos preconceituosos apenas porque se insere na tradição ou porque “isso é assim mesmo” e “pau que nasce torto morre torto”.
Questionar alteritariamente, dentro dos ditames éticos e não apenas para polemizar de forma infundada, significa querer e buscar novas alternativas para a realidade. Significa entender que a verdade é uma construção histórica e dialógica. Significa, principalmente, entender que as diversas opiniões não se excluem e, por isso, tem-se sempre algo novo a aprender, porque no fundo ‘só sei que nada sei’.”

Então se pureza é isso, talvez eu seja, nesse sentido, pura, porque meu estado constante é de dúvida. Todos os dias eu peço para Buda para penetrar a Mente da Grande Pureza e alcançar a Sabedoria Completa manifestando assim a Compaixão absoluta por todos os seres. Eu peço por mim e por uma lista enorme de pessoas pelas quais eu rezo todos os dias, que todos penetremos essa Mente da Grande Pureza e alcancemos a Sabedoria Completa e manifestemos a Compaixão absoluta por todos os seres de modo que não façamos o mal, nem mesmo a nós mesmos, que façamos o bem, que façamos o bem a todos os seres, inclusive a nós mesmos. Rezo muitas coisas mas essa parte já é como que o final e clímax da oração, antes de pedir “que nos tornemos, aqui e agora, o Caminho Iluminado”, todos os Budas, através do espaço e do tempo, todos os Bodhisattvas, Mahasattvas, MahaPrajna, Paramita.

Ora se Sartre está correto, e este link (que li) está correto ao interpretar Sartre (que eu não li), desta forma, Sabedoria Completa só existe em estado de dúvida, porque eu preciso estar aberta para entender que eu não sei tudo e que todas as sabedorias são possíveis e para ser completa eu preciso abarcar o conjunto de sabedorias sem juízo de valor e mais ainda, não só sem juízo de valor mas entender que Sabedoria Completa é algo que eu não alcanço sozinha e individualmente mas em conjunto com tudo que existe, ou ainda, só a Sabedoria Completa alcança a Sabedoria Completa, mas posso tangenciá-la no que toca à pureza, se me mantenho em estado de dúvida, a incerteza seria esse preço, diga-se de passagem, delicioso e libertador, para participar do conjunto chamado Sabedoria Completa.

Bem, eu ainda não trouxe o post do professor aqui pra mostrar como é que funciona o prazer da dúvida e da criatividade (que só pode aparecer no espaço vazio aberto pela dúvida).

Vamos ao Post do Professor.

Escrevi três comentários sobre isso, coisas que me ocorreram:

“Tem tantos significados isso, pode ser compreendido de diversas maneiras.”

“- Se depende das mulheres com quem não se casou, ele pode estar feliz por não ter se casado com uma série de mulheres “erradas” e ter escolhido uma “certa”, então dependeria da escolha, de não ter escolhido errado.
– Ou então podemos imaginar que a felicidade dele depende das outras porque quem lhe dá felicidade são elas, e não a esposa, então a escolha foi “ruim” mas ele pode manter relações extra-conjugais e ser feliz
– Também pode ser um homem que se sente feliz porque não casou com mulher, que a felicidade depende de não ter escolhido mulher pra casar, essa felicidade dependeria de não casar com mulher de jeito algum, das mulheresbque ele não casou: nenhuma.
– Também podemos imaginar que nem casado ele é e a frase seria uma ironia da parte dele, que a felicidade depende de realmente não casar de jeito algum. Que o único jeito do homem casado ser feliz é não casar.”

“Pensei mais uma, que a felicidade do homem casado depende das mulheres com quem ele não casou porque se refere às relações familiares de infância, onde não é possível haver casamento, como mãe, irmãs, tias, avós, e nesse sentido, se este homem teve bons relacionamentos familiares e estabeleceu formas saudáveis de se relacionar com mulher, então ele terá mais chances de ser feliz com a mulher ou com as mulheres que eleger para casar, ou seja um velho ditado: um bom marido foi um bom filho e um bom irmão, mas não só da parte dele, se ele teve mulheres boas na infância, terá mais sucesso na escolha para casar, até mesmo se não casar com um mulher, eu arriscaria dizer.”

Isso é um estado de dúvida, que em sentimento, longe da pobreza por um suposta ausência de certeza, traduz um sentimento de riqueza por um acúmulo de possibilidades que não são nem mesmo excludentes. Quando mais dúvida, me parece, mais sabedoria. E seria completa se eu pudesse imaginar todas as “possibilidades possíveis”. Mas não posso. Então não tenho a sabedoria completa. Todas as “possibilidades possíveis” são infinitas e para isso eu preciso não abarcar todas as certezas, mas todos os seres, porque todos têm suas infinitas dúvidas, a Sabedoria Completa é infinita, e eu sinto que só posso vislumbrá-la enquanto possibilidade, uma pequena fresta, e desfrutar dela mantendo o estado de dúvida.

Quanto ao Post do Professore, eu poderia pensar mais coisas, sobre a afirmativa do Wild. Colocar em dúvida se felicidade existe. Ou questionar felicidade, o que seria ela. Ou questionar o que é homem. Ou questionar o porquê do Oscar Wild atrelar felicidade ao casamento. Eu posso passar o dia questionando o post e chegar a inúmeros lugares e não chegar a lugar nenhum e me divertir com a paisagem da estrada e dos caminhos do pensamento. Mas não vou fazer isso, por dois, ou melhor,  três motivos. Primeiro que já está demonstrado o que intencionei demonstrar. Segundo para que você, querido leitor, consiga pensar você mesmo outras tantas coisas que a afirmativa contida no post possa significar ou des-significar. E terceiro que tenho que ler um texto do Freud agora e minha mente irá para outros recantos.

Eu deixo aqui, para você que me leu até o fim, uma canção que cita a fala do Sartre:

Infinita Highway
Humberto Gessinger

Você me faz correr demais
Os riscos desta highway
Você me faz correr atrás
Do horizonte desta highway
Ninguém por perto, silêncio no deserto
Deserta highway
Estamos sós e nenhum de nós
Sabe exatamente onde vai parar

Mas não precisamos saber pra onde vamos
Nós só precisamos ir
Não queremos ter o que não temos
Nós só queremos viver
Sem motivos, nem objetivos
Estamos vivos e isto é tudo
É sobretudo a lei
Da infinita highway

Quando eu vivia e morria na cidade
Eu não tinha nada, nada a temer
Mas eu tinha medo, medo dessa estrada
Olhe só, veja você
Quando eu vivia e morria na cidade
Eu tinha de tudo, tudo ao meu redor
Mas tudo que eu sentia era que algo me faltava
E à noite eu acordava banhado em suor

Não queremos lembrar o que esquecemos
Nós só queremos viver
Não queremos aprender o que sabemos
Não queremos nem saber
Sem motivos, nem objetivos
Estamos vivos e é só
Só obedecemos a lei
Da infinita highway

Escute, garota, o vento canta uma canção
Dessas que uma banda nunca canta sem razão
Me diga, garota: será a estrada uma prisão?
Eu acho que sim, você finge que não
Mas nem por isso ficaremos parados
Com a cabeça nas nuvens e os pés no chão
“tudo bem, garota, não adianta mesmo ser livre”
Se tanta gente vive sem ter como viver

Estamos sós e nenhum de nós
Sabe onde quer chegar
Estamos vivos, sem motivos
Que motivos temos pra estar?
Atrás de palavras escondidas
Nas entrelinhas do horizonte dessa highway
Silenciosa highway

Eu vejo um horizonte trêmulo
Eu tenho os olhos úmidos
Eu posso estar completamente enganado
Eu posso estar correndo pro lado errado
Mas “a dúvida é o preço da pureza”
É inútil ter certeza
Eu vejo as placas dizendo
“não corra, não morra, não fume”
Eu vejo as placas cortando o horizonte
Elas parecem facas de dois gumes

Minha vida é tão confusa quanto a américa central
Por isso não me acuse de ser irracional
Escute, garota, façamos um trato:
Você desliga o telefone se eu ficar muito abstrato
Eu posso ser um beatle, um beatnik
Ou um bitolado
Mas eu não sou ator
Eu não tô à toa do teu lado
Por isso, garota, façamos um pacto
De não usar a highway pra causar impacto

Cento e dez, cento e vinte
Cento e sessenta
Só prá ver até quando o motor agüenta
Na boca, em vez de um beijo,
Um chiclet de menta
E a sombra do sorriso que eu deixei
Numa das curvas da highway

 

 

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