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Esse blog só surgiu porque tive a necessidade de publicar um texto que surgiu offline. Cansei do Facebook e lá nem é o lugar adequado. No OpenOffice deu 14 páginas. O que fazer com isso? Achei por bem compartilhar. Está praticamente sem links, sem nada. Com erros. Bem cru, quase que do jeito que saiu. Basicamente minha associação livre sozinha ao estudar.

Eu venho melhorar isso. Vou arrumar com calma.

Pra quem me conhece e perdeu o fio da meada em algum lugar do passado, eu me retomo aqui. Uma busca que surgiu 2001 com o Wumanity.com (domínio este que não possuo mais), e busca esta que não morreu com ele quando retirei o blog de circulação em 2005.

Acho que vai sair algo como um “vintage blog” porque eu parei há tantos anos e agora quero um blog pessoal outra vez.  A intenção é colocar o logo e tudo que faz parte de um blog aos poucos, junto com a produção de texto, porque aparência aqui não é urgente. Produção de texto é. O logo está quase pronto mas não tenho agora muito tempo pra brincar de layout. Eu acho. A não ser que eu me empolgue e fique hiperprodutiva. Mas o tempo anda escasso, de qualquer maneira. O tema eu troco logo, por algo que tenha a “sidebar” onde vou começar a garimpar e publicar alguns links. Seja bem-vindo.

Segue texto, falta um monte de links nele, eu vou colocar e arrumar tudo antes de fazer o próximo post. O texto é fruto de um estudo que fiz esta semana, de filosofia. Mas produzirei textos de outros assuntos que eu estiver estudando também. Vem comigo? 🙂

Parti do link abaixo para iniciar uma investigação sobre os conceitos básicos da filosofia pré-socrática physis, cosmos, arche e logos.
Não é um texto acadêmico, ao contrário. É uma estudo pessoal, quase uma conversa particular comigo mesma sobre algo que estou tentando entender:

Physis, Cosmos, Arché, Logos

Texto:
Physis, Cosmos, Arché, Logos
Publicado em 03/04/2011por Gustavo Bertoche

“Physis significa, no contexto dos primeiros filósofos, o conjunto de todas as coisas naturais que existem . A palavra também significa origem. Como os gregos da época consideravam que tudo o que existe é natural, a physis significa o conjunto de todas as coisas, e “o problema da physis” é a pergunta sobre a origem e a constituição de todas as coisas que existem.

Cosmos significa ordem, organização, e é utilizado no contexto dos primeiros filósofos para designar a ordem que existe na physis. Cosmos é o contrário de caos. Os primeiros a usar a palavra cosmos como sinônimo de universo foram os membros da Confraria Pitagórica.

Arché significa a fonte, a origem e a raiz de todas as coisas da physis, de onde as coisas vêm e para onde vão. Além disso, pode ser compreendida como o princípio de uma coisa, que, embora intangível e indemonstrável, provê as condições de possibilidade da coisa.

Logos significa a razão, a linguagem, a palavra. Logos designa a razão humana, o pensamento que busca compreender a physis; mas, pelo menos a partir de Heráclito, logos também pode ser interpretado como a razão universal, fixa e imutável que ordena e organiza todas as coisas particulares e transitórias; o logos, neste sentido, é um princípio cosmológico.”

Então eu disse pra mim, em pensamento:

– Cosmos e Caos, ok, compreendido. Cosmos um sistema de organização. Caos, desorganização.

– Logos = razão, linguagem, palavra. Ok, compreendido. Penso que a relação entre razão e linguagem venha a ser tão estreita que é difícil separar as duas. Obviamente não estou falando de linguagem verbal. Mas toda e qualquer formação mental organizada que permite a comunicação ou expressão ou descrição de uma idéia, conceito, sentimento ou objeto, quer seja da ordem do abstrato, quer do concreto.

Physis: não completamente compreendido. O texto diz que é o conjunto de tudo que existe. Mas que também significa origem. E também diz que o problema da physis é a pergunta sobre a origem e constituição de tudo que existe. Aqui reside a questão que me confunde. Pois a diversidade de tudo que existe me obriga a pensar que uma coisa é o “lugar” (?) ou processo que origina tudo é uma coisa, já o elemento que essa “origem” usa para “criar” todas as coisas que existem é ou são outras coisas (arché?), e a constituição de tudo que existe já é outra coisa visto que tudo que existe é constituído de diferentes coisas (physis?), então já há também a idéia de transformação do elemento original ou elementos originais indicando que a physis é dinâmica e não um “bigbang” ocorrido no passado com 1 elemento original, mas sim uma realidade que se cria e se recria o tempo todo com diversos elementos diferentes. (Seriam ele alterações do elemento original?). Seria physis esta realidade? Mas se physis é a origem, de que origem ela se trata? Do processo original ou dos elementos ou elemento original? E enquanto origem, ela pode ser também esse todo manifesto ao mesmo tempo?

Arché: não completamente compreendido. O texto diz que é a origem e a raiz de todas as coisas da physis, de onde as coisas vêm e para onde as coisas vão. Mas outras leituras anteriores me dizem que arché seria o elemento que teria dado origem a tudo, uma das grandes questões dos pré-socráticos. Então novamente physis e arché aqui se confundem no meu raciocínio. Esse “vazio” de onde tudo vem e para onde tudo vai é o arché? É um processo? Um lugar? Um elemento? São os três ao mesmo tempo? São uma trindade una e inseparável talvez, muito mais mundana do que divina e no entanto, ainda assim sagrada pelo mistério que abriga?

Até agora physis e arché me parecem a mesma coisa.
Então continuo a pesquisa, fui na Wikipedia mesmo na esperança de encontrar algo simplificado, onde vi que não é bem assim:
https://pt.wikipedia.org/wiki/Physis

O texto inicia com um trecho mitológico e poético:

“Phýsis (em grego Φύσις, “Natureza”) também chamada de Prôtogéneia (em grego Πρωτογένεια, “Primordial”), na mitologia grega, era a divindade primordial da natureza e um dos primeiros seres a surgir no princípio dos tempos. Na mitologia romana é chamada de Natura. Atribuem-lhe ambos os sexos, e geralmente era identificada com Gaia (a Mãe-Terra), com Eros (o desejo sexual), com Fanes (a luz) ou Tésis (a criação).[1]”

Primórdio no dicionário não é um elemento ou lugar ou processo. É uma fase da criação de algo. Então seria uma questão temporal? Penso na palavra ato. Ato da criação. Fecundação, gestação, ou parto? Não sei, mas é algo que permite uma poiesis, o aparecimento de algo que não estava lá (? será?).

O texto prossegue:

“Portanto, a palavra grega Physis pode ser traduzida por natureza, mas seu significado é mais amplo. Refere-se também à realidade, não aquela pronta e acabada, mas a que se encontra em movimento e transformação, a que nasce e se desenvolve, o fundo eterno, perene, imortal e imperecível de onde tudo brota e para onde tudo retorna. Nesse sentido, a palavra significa gênese, origem, manifestação. Saber o que é Physis, assim, levanta a questão da origem de todas as coisas, a sua essência, que constituem a realidade, que se manifesta no Movimento. Nas palavras do professor Miguel Spinelli: “tudo o que nasce está destinado a ser o que deve ser e não outra coisa. Esse nascer destinado, pelo qual o que nasce se submete a um processo de realização, é a phýsis, e, como tal, a archê. (…) tanto a phýsis quanto a archê não são expressões do anárquico (…), tampouco do ocasional… O que esses termos conjuntamente designam é o que ocorre sempre ou de ordinário (…), mas com uma eficácia tal que “dispara” sempre (como se fosse um gatilho biológico) o que é melhor dentre todo o possível” (SPINELLI, Miguel. Questões Fundamentais da Filosofia Grega. São Paulo: Loyola, 2006, pp.36-37).

A phýsis expressa um princípio de movimento relativo ao fazer-se das coisas nas quais mudam as aparências, enquanto que cada (ser ou coisa) permanece sempre sendo ela mesma.

Esse movimento seria a contínua transformação dos seres, mudando de qualidade (por exemplo, o novo envelhece; o quente esfria; o frio esquenta; o seco fica úmido; o úmido seca; o dia se torna noite; a noite se torna dia; a primavera cede lugar ao verão, que cede lugar ao outono, que cede lugar ao inverno; a árvore vem da semente e produz sementes, etc.) e mudando de quantidade (o pequeno cresce e fica grande; o grande diminui e fica pequeno; um rio aumenta de volume na cheia e diminui na seca, etc). Portanto o mundo (Physis) está em mudança contínua, e nem por isso perde sua forma, sua ordem e sua estabilidade.

Os filósofos pré-socráticos tinham como principal preocupação a explicação dos aspectos referentes a cosmologia. Tiveram um papel importante, na medida em que marcam toda uma fase de pensamento voltada para a explicação racional dos fenômenos que constituíam as inquietações dos homens daquela época.”

Aqui compreendo que o autor (?) quis dizer que physis pode ser natureza no sentido de tudo que há, em “as coisas da natureza”, bem como no sentido de natureza no sentido de “a natureza das coisas”. E que physis é um nascer de um algo que passou por um processo de realização. É uma manifestação não ocasional, ao contrário, vem de um processo que organizou este algo para um vir a ser inicialmente definido porém não estático, ou seja, para gerar algo que não estava lá que passará a ser constantemente recriado e transformado.
O autor parece dizer que o conceito de physis é a expressão de um movimento de impermanência da aparência de coisas que têm uma natureza imutável. Essa realidade. Essa natureza imutável eu não saberia dizer o que é. Um processo? Um elemento? Uma vibração? É partícula? É onda? É o movimento? É a própria impermanência? Se é natureza, é impermanente. E nessa impermanência, a única coisa permanente e imutável é o próprio fato de que tudo é impermanente. Então seria um processo? Physis é a natureza das coisas, que é impermanente? Physis são as coisas da natureza, que são impermanentes? Meu raciocínio parece chegar à um denominador comum. No entanto, lembro-me que physis também significa origem. Se eu pensar que a origem de tudo é essa impermanência e que tudo permanece impermanente, a impermanência pode ser ao mesmo tempo as coisas da natureza, a natureza das coisas, o processo, lugar, tempo, os elementos e a manifestação em movimento e transformação, tudo ao mesmo tempo, e por isso não tem como separar, porque tudo co-surge. Tudo acontece ao mesmo tempo então tudo é physis?

Vamos a outro link sobre physis:
http://www.dicpoetica.letras.ufrj.br/index.php/Physis

O texto traz Heráclito (535 A.C. – 475 A.C.), um contêmporâneo de Buda (563 A.C. – 483 A.C.). Heráclito em Éfeso, onde hoje é a Turquia e Buda no norte da Índia, Nepal (?), separados pelo Oriente Médio, que na época (mais ou menos 600 a 400 Antes de Cristo) ocorria o Império Persa (?) Confere?. Não era tão longe assim. O mundo é uma ervilha, ainda é. Teria Buda, um pouco mais velho que Heráclito, de alguma forma influenciado este filósofo de Éfeso? Eles têm coisas em comum.

Enfim, Heráclito é o homem que diz que é impossível banhar-se no mesmo rio, pois ao retornar ao rio, nem as águas são as mesmas nem nós somos os mesmos ao entrar novamente neste rio. Ou algo assim.

O texto diz que Heráclito diz que para ele physis é um surgir incessante, então estamos chegando em algum lugar.

Vamos ao texto:

“A phýsis no pensar de Heráclito é o surgir incessante” (1), “o que literalmente significa: surgir no sentido de provir do que se acha escondido, velado e abrigado. Esse surgir torna-se imediatamente visível quando pensamos no surgimento da semente escondida dentro da terra, no rebento, no surgir dos brotos. A visão do nascer do sol também pertence à essência do surgimento. Podemos ainda pensar o surgir como quando o homem, concentrando o olhar, surge para si mesmo, como no discurso o mundo surge para o homem e com ele se reúne a fim de que o próprio homem se revele, como o ânimo se desdobra nos gestos, como sua essência persegue o desvelamento num jogo, como sua essência se manifesta na simples existência. Em toda parte – para não se falar do aceno dos deuses – dá-se um vigor recíproco de todas as essências, e em tudo isso o aparecimento, no sentido de mostrar-se a partir de e dentro de si mesmo. Isso é a phýsis” (2).
Referências:
(1) CASTRO, Manuel Antônio de. “Poiesis, sujeito e metafísica”. In: ______ (org.). A construção poética do real. Rio de Janeiro: 7letras, 2004, p.28.
(2) HEIDEGGER, Martin. Heráclito. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 1998, p. 101.”

Esse pedaço de texto é muito psicanalítico. Esse surgir do homem em si e a partir de si da fala, do discurso e no mesmo processo o mundo que surge para esse homem que está surgindo. Mas também é bem Budista, vamos ver isso devagar.
O autor fala aqui mais de uma essência, é a essência do surgir. Physis em essência é o surgimento, então? Que não se dá sem um processo de organização?

O texto continua:

“A phýsis diz, ao contrário, aquilo em meio ao que já muito antes o céu e a terra, o mar e as montanhas, a árvore e o animal, o homem e os deuses surgem e se mostram como o que surge, de maneira a serem chamados de entes nessa dimensão. O que para nós aparece como processos da natureza, para os gregos só se torna visível à luz da phýsis”(1). A palavra grega physis foi traduzida para o latim por natura, ou seja, natureza, o que não diz toda a complexidade da physis, sobretudo porque se perdeu a ligação com a luz, ou seja, phos.
– Manuel Antônio de Castro
Referência:
(1) HEIDEGGER, Martin. Heráclito. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 1998, p. 102.”

Então physis e luz estão de tal forma que a palavra natureza não dá conta de tudo. Natureza das coisas ou coisas da natureza, ecoa. Um processo iluminado? Iluminado porque algo surge e se dá a ser enxergado, visto? Manifestações às claras, a realidade assim como é? Buda sopra na minha orelha que Physis é um processo iluminado onde tudo se manifesta ao mesmo tempo e que tudo é como é, assim como é, Nyoze. A luz é ver esse todo manifesto? Eu vejo que tudo que existe é um grande e complexo processo que está acontecendo aqui e agora e (pronto!), já aconteceu de novo, e olhe, de novo! A vida é um instante e esse instante aqui acabou de se perder e já vem outro e é isso. Mas, nessa constante poiesis, o que hei de colocar no mundo? Como vou organizar algo de forma a apresentar algo no mundo que beneficie inúmeros seres? Como vou organizar meu pensamento de forma a apresentar um algo novo no mundo? Novo no sentido de transformação, não de inédito. O que eu coloco nesse processo de physis em que estamos todos “condenados” a participar o tempo todo? Se eu não me organizar internamente, eu trarei caos à physis. Buda sopra na minha orelha que isso é sofrimento. Pra mim e para os outros. O texto falou de provir algo que está escondido, esse surgimento de algo que já está lá, porém implícito, e que não se manifestará e não poderá ser visto a não ser que passe por um processo de organização. Então essa “semente” de tudo já está lá? Já está aqui? É um broto, um algo onde um processo tem que acontecer para que venha a ser? Isso é a essência das coisas? Isso é physis? Isso é Arché?
Arché é a possibilidade? Ou é a physis que me fala do possível?

O texto prossegue.

“A realidade em seu esplendor e diversidade – a phýsis para os gregos – não é apenas essa riqueza admirável, ela também não cessa de mudar, de se renovar, mas também de retornar em sucessivas gerações e estações do ano. Da semente nasce a planta que cresce, dá flores, frutos e sementes, de onde nasce de novo a árvore num círculo poético infinito. O próprio ser humano nasce, cresce e morre, mas renascendo em cada novo nascimento. É o génos: a geração dentro de uma família” (1).
Referência:
(1) CASTRO, Manuel Antônio de. “O próprio como possibilidades”. In: ——–. Arte: o humano e o destino. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 2011, p. 127.”

Parece que facilitou mas complicou tudo de novo, não precisava falar em génos ainda, e família. Estava tudo bem até a última oração. Essa variável complicadora chamada família chama o Freud do túmulo e eu mal estou dando conta do Heráclico com Buda. Talvez essa seja uma grande trindade, Freud, Buda e Heráclito. Em qualquer ordem.

Voltando para Physis e Arché.

“Uma outra tradução para physis é realidade, referindo-se a tudo e todos, ou seja ao universo.
– Manuel Antônio de Castro”

Simplificou bem, aparentemente. Physis é o universo. Pronto. Dilema solucionado. Só que não.

“O que se dá a ver é, para os gregos, a physis; para nós, a realidade. Para mostrar o que se dá a ver (a realidade, a physis), o ser humano recebe da própria physis duas dimensões que o constituem, circunscrevem e determinam: o pensamento (nous, em grego) e a linguagem (logos, em grego). O nous é o pensamento que permite ver o não visto. E este pode ser dito enquanto sentido e mundo porque somos constituídos pelo logos, a linguagem. É o nous e o logos, na vigência da poiesis da realidade, que constituem o seu sentido e mundo, manifestados nos paradigmas. Chamamos poiesis a permanência e transformação da realidade, daí ser ela originária e radicalmente poética” (1).
Referência:
(1) CASTRO, Manuel Antônio de. “A globalização e os desafios do humano”. In: Revista Tempo Brasileiro, 201/202 – Globalização, pensamento e arte. Rio de Janeiro, abr.-set., 2015, p. 19.

Ok, physis, realidade. Essa realidade do universo. Esse universo real. Que pode ser visto, ok. Está um pouco mais concreto. Pouco. Mas o processo pensamento-linguagem é o que permite ver o que não estava visto? Mas já estava lá e o processo de criação e organização que leva à manifestação ocorre no pensamento e linguagem?

Então o que percebo é fruto do meu processo de pensamento e linguagem. Buda de um lado fala “eu expliquei, o caminho óctuplo”. E isso que já estava “lá” é essa massa amorfa no vazio que só existe na minha mente? Alguém me ajuda aqui (risos).

Buda me diz “forma é exatamente vazio, vazio é exatamente forma”. A forma vazia de forma, que vai tomando forma a partir do meu processo de pensamento e linguagem mas que essa forma muda o tempo todo e porque eu mudo o tempo todo e todo o resto também tem seus processos também e por conseguinte esse todo resto também está mudando o tempo todo e tudo junto é uma coisa só, essa é a poiesis de um todo uno que se reinventa e se recria o tempo todo do qual eu só percebo a partir da minha mente? Onde tudo muda tudo?

Bodhidharma quer entrar na conversa, lembro distante de um Teisho “a mente é Buda”.
Eu digo, muita calma nessa hora. Eu não entendo nada de nada, eu só tenho questões. Vamos voltar para o texto.

” Physis kryptestai philei – Surgimento já tende ao encobrimento” (1).
Referência:
(1) HERÁCLITO, frag. 123. Trad. Emmanuel Carneiro Leão. In: Os pensadores originários – Anaximandro, Parmênides, Heráclito. Petrópolis: Vozes, 1991, p. 91.

Heráclito complicou aqui porque se physis é esse surgir constante, se algo surge é porque estava encoberto. Aí eu me pergunto, se algo estava encoberto, já era desse jeito mesmo? Impossível, já que tudo muda o tempo todo. Quer dizer que um processo de organização fará revelar ou manifestar algo que já estava lá mas esse algo não é fixo? Physis é a manifestação do não-fixo? Isso me lembra algo que não lembro agora mas sei que é Budista. Gente. É muita coisa que passa na minha mente.
É muita coisa.

Não desistamos. O texto do link prossegue.

Fui ler o pedaço e não trouxe, aquele Castrooutra vez, danadinho! Misturou o conceito de cultura com o de physis, como ele fez com o conceito de genos e ele acha que isso ajuda a decifrar o mistério da physis mas só complicou.

No próximo pedaço o Castro diz:

“O operar do questionar no ser humano origina o seu querer, de onde surge a vontade. Igualmente o operar do questionar o faz querer o saber de todo não-saber, de onde lhe advém o intelecto. Não há vontade sem intelecto e nem intelecto sem vontade. Porém, tanto a vontade como o intelecto são doações da phýsis, em seu manifestar-se como questão no ser humano. Este não apenas quer saber por compulsão, de alguma maneira ele sabe sempre o que quer e não-quer, porque quer saber o não-saber de todo querer e questionar” (1).
Referência:
(1) CASTRO, Manuel Antônio de. ” Phýsis e humano: a arte”. In: —–. Arte: o humano e o destino. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 2011, p. 266.

Isso me soa muito psicanalítico.

Minha mente começa a dar sinais de cansaço de raciocínio, porque isso não é da ordem do intelecto apenas. E eu li esse parágrafo e só consegui entender que “este tal Castro” (risos), que nunca me viu mais gorda, nem mais magra, está dizendo algo sobre mim.

Vou me abster de destrinchar esse parágrafo dele, pois Freud aqui do meu lado fala do desejo, e isso eu ainda estou aprendendo em psicanálise. Buda me fala da ausência de intenção, e até mesmo de ausência de desejo, e eu não lembro bem onde essa parte de Buda se encaixa, em qual contexto que foi que aprendi isso. Muita informação para dar conta.

Mas em mim há o desejo de saber e também o desejo de não saber. Ora se não é o desejo de não saber a resistência em fazer meditação, a resistência em ir pra análise e falar sem censura tudo que vem à cabeça?

E há em mim a conciência de que nunca vou saber tudo, ok, eu sou limitada diante dessa vastidão. E há o fato que há dias em que estou ok em não saber e há dias em que preciso estudar e saber, e fazer prova e me formar. E dias que quero saber tudo e desse mistério chamado vida, chamado mundo, chamado universo. Assim é a physis. Eu acho. Dessa frestinha que pude observar.

Então me pergunto se physis é tudo que existe e isso tudo é um processo de manifestar/revelar algo (que muda o tempo todo) processo esse que, do qual faz parte a vontade, o desejo, o pensamento e a linguagem, inclusive eu mesma? Não sou parte do processo, sou o processo junto com tudo? Sou o processo em pensamentos e palavras, atos e omissões? Vejo no canto a sombra de Saussure e Lacan, que me aguardam em silêncio, para um futuro indeterminado, longe é o caminho dos séculos até chegar neles.

Calma.

Mas algo em mim pede uma conclusão que não seja confusa. Penso que posso ficar com a idéia que physis é o universo em constante mutação, é tudo que existe, são todas as coisas da natureza, e a natureza dessas coisas é mudar o tempo todo. Eu não sei se é um lugar, se são elementos em transformação, se é um tempo, uma fase de criação, um processo de organização, um movimento, uma revelação de algo que já estava lá ou uma manifestação ou criação de algo que ainda não existia, ou se crio essa manifestação quando organizo algo, ou se é algo que só se manifesta a partir do meu desejo, pensamento e/ou linguagem, mas na verdade tudo está lá já, ou aqui, assim como é e o que muda é o meu olhar e o que eu sou capaz de perceber e isso é a minha poiesis. Eu não sei. Eu juro que não fumei nada. Eu só fiz Zazen antes de estudar filosofia. Eu medito antes de estudar. Minha prática vem de muitos anos.

Acho que não há uma resposta para a physis, são tantas.
Arché vai ficar para outro dia.
Physis é tudo que não sei, eu acho.

E não intenciono mais encontrar uma resposta definitiva. Não é da ordem da razão. Está relacionada com o mistério do universo. Mistério esse que está em tudo que existe e no meu inconsciente, mistério esse de natureza impermanente, então não há nada para ser agarrado. É algo que percebo quando faço meditação, é algo que percebo quando estou no divã fazendo associação livre, é algo que percebo quando observo a vida, o mundo e as pessoas, eu mesma. É um algo que se decifrado completamente perde a graça.

Para efeitos práticos, eu me repito: “Penso que posso ficar com a idéia que physis é o universo em constante mutação.” Mas mais do que isso, é o mistério de como tudo isso funciona e se manifesta.
E isso já é de uma enormidade descomunal.
Isso começou no dia 29/09/2019 até ontem a noite, 01/10/2019

Hoje finalizei (02/10/2019)

Encontrei isso na internet outro dia, no facebook, depois de escrever meu texto. Está no You Tube a entrevista, mas eu trouxe só um recorte:

“Pirulla, biólogo animal e divulgador científico no YouTube, entrevistando a Monja Coen, uma monja Zen Budista.
(Monja Coen diz:)
“[…]Tudo o que Buda dizia é que o que existe é uma relação de causas, condições e efeitos.

[…] E perguntavam a ela qual era a causa primeira, e ele silenciava. Ele nunca disse que Não houve uma causa primeira ou a causa primeira chama-se Deus. Isso não existe, ele não falou isso. Então, nós não temos um conceito de Deus, daquele que criou do nada o Tudo. Isso, para nós, não existe.”

Bom, eu não estava pensando em Deus como causa primeira, isso nem tinha entrado. Nem em alma, que ela fala também, mas eu tirei os parágrafos porque ia complicar, como o Castro, pois não está no eixo central do meu estudo. Monja Coen (https://www.monjacoen.com.br/) continua:

“O que existe é o Universo de causas e condições. E nós dizemos que tudo que existe é o co-surgir interdependente e simultâneo. E não tem uma entidade governando isso, não tem um Espírito governando isso, não tem uma inteligência separada governado isso. A inteligência é a própria manifestação da transformação incessante, que disso surge aquilo, daquilo surge isso. Então, para nós, é uma trama de interdependência e não de alguma coisa separada que vai criar algo separado de si mesmo.
[…] Não existe nada eterno ou permanente.
[…] O que o Budismo Japonês vai dizer? Vai falar de renascimento, ou seja, o processo é incessante, mas dizemos que o Ensinamento Superior é o não-nascido e o não-morto, nada nasce nem nada morre. Se a gente pensar como Lavoisier que tudo que existe se transforma e é um processo incessante.[…]”

Então eu me pergunto:
A Physis seria o que a Monja Coen chama de “tudo que existe é o co-surgir interdependente e simultâneo.”

Hoje eu vim tentar entender o que é Arché, antes de continuar a leitura do livro dos Pré-Socráticos (coleção Os Pensadores)

Vamos na Wikipédia mesmo, tudo bem, parece suficiente por hora! Depois buscamos outras referências.
https://pt.wikipedia.org/wiki/Arché

O texto diz:

“Para os filósofos pré-socráticos, a arché ou arqué (em grego antigo: ἀρχή), seria o elemento que deveria estar presente em todos os momentos da existência de todas as coisas do mundo. No caso de Tales de Mileto, por exemplo, a água era um elemento puro, e através dela podia-se criar várias coisas; o início, o desenvolvimento e o fim de tudo. Princípio único.”

Entendo que a questão seja sobre um elemento comum a tudo que existe, ou um princípio comum a tudo que existe (uma essência?). Então pode ser material ou não-material. Os filósofos estavam procurando um elemento material, pelo menos a maioria deles. Mas eu me recordo de Anaximandro e seu Apeíron. E me recordo de Bussho, a natureza Buda, essência. Eu não entendo o suficiente de nenhum, e portanto vou me ater apenas ao conceito de Arché e manter o foco. Já já chegamos em Anaximandro. Me lembro que a Monja sempre dizia que tudo tem Natureza Buda. Só isso. E lembro que para perceber isso não era da ordem do intelectual, da razão, mas sim da percepção e que por isso fazemos zazen. Será que me recordo disso corretamente?

Houveram diferentes escolas de pré-socráticos, mas não vou entrar nisso agora em detalhes. A minha favorita é a escola Jônica por causa de Heráclito e Anaximandro.

(Esse seguinte link tem detalhes, pra quem quiser, mais sobre os pré-socráticos e suas diferentes escolas https://pt.wikipedia.org/wiki/Pré-socráticos não vou questionar esse conteúdo hoje.)

Obs.: Wikipédia serve sim, como início, como ponto de partida. O aprofundamento vem com a sua pesquisa em outros links e principalmente com a leitura de livros!

Eu ainda estou apenas elaborando o conceito de Arché, ou tentando entendê-lo por ser conceito base dessa fase da filosofia. Continuemos:

“Os filósofos pré-socráticos rejeitaram explicações mitológicas tradicionais dos fenômenos que viam ao seu redor em favor de explicações mais racionais. Esses filósofos fizeram perguntas sobre “a essência das coisas”:[4] “

Então voltando ao primeiro link de hoje (https://pt.wikipedia.org/wiki/Arché), vejo que se a questão para a maioria era um elemento “material”, alguns pensaram que a essencia de tudo era a água, outros o ar, outros o fogo, outros a terra, outros os quatro elementos juntos. E outros pensaram que eram os átomos, outros partículas minúsculas. E até mesmo coisas não exatamente materiais mas bem concretas, como a matemática, como Pitágoras, que entendeu que essa era a linguagem do universo e de suas leis. É lindo ver esses primórdios de racionalizações que deram origem às ciências. Se eu pensar o conceito de arché dentro disso, ele não se parece com o conceito de physis, mas trabalha em complementaridade.

Arché elementos, physis processo. Eu podia ficar com isso.

Mas não é tão simples assim. Quando Anaximandro pensa arché sendo o infinito, ele se mistura com o conceito de physis. Veja o que a continuação do texto diz:

“Anaximandro de Mileto: o Ápeiron

Rudini observa que Anaximandro tinha um argumento contra Tales: o ar é frio, a água é úmida, e o fogo é quente, e essas coisas são antagônicas entre si, portanto um o elemento primordial não poderia ser um dos elementos visíveis, teria que ser um elemento neutro, que está presente em tudo, mas está invisível.

Anaximandro foi um dos pré-socráticos que mais se diferenciou na sua concepção da arché por não a ver como um elemento determinado, material. Considerava o infinito como o princípio das coisas, e o chamou de Éter, considerava então, que o limitado não poderia ser a origem das coisas limitadas. Explica que as coisas nascem do infinito através de um processo de separação dos contrários (seco-úmido).

Anaximandro ainda afirmaria que os primeiros animais nasceram no elemento líquido e, pouco a pouco, vieram para o ambiente seco, mudando o seu modo de viver por um processo de adaptação ao ambiente, extremamente coerente com as teorias evolucionistas de Charles Darwin.”

“… o ilimitado é imortal e indissolúvel…”

Isso se parece muito com o conceito de não-nascido não-morto do Zen Budismo, cujo nome em japonês desse conceito eu não me recordo, porque nunca estudei isso a fundo, eu estava dormindo, eu acho.

Para Anaximandro, isso se chamava Apeíron
https://pt.wikipedia.org/wiki/Ápeiron

“Ápeiron (ἄπειρον) é uma palavra grego que significa ilimitado, infinito ou indefinido[1] que advém de ἀ- a-, “sem” e πεῖραρ peirar, “fim, limite”,[2] forma do Grego jónico de πέρας peras, “fim, limite, fronteira”.[3]
O ápeiron é central na teoria cosmológica criada por Anaximandro, no século VI a.C. A obra de Anaximandro foi praticamente toda perdida. Dos fragmentos existentes, aprendemos que ele acreditava que a realidade última, a arché, é eterna e infinita, ou sem fronteiras (ápeiron), não sujeito a idade ou desintegração, e de onde provém sempre novo material do qual tudo o que percebemos é derivado.[4] O ápeiron gerou os opostos, quente-frio, seco-molhado, etc, que actuaram na criação do mundo. Tudo é gerado a partir do ápeiron e então é aí destruído conforme a necessidade.[5] Anaximandro também acreditava que infinitos mundos são criados do ápeiron e aí destruídos posteriormente.[6] (…) A filosofia grega entrou num nível mais alto de abstracção, adoptando o ápeiron como origem de todas as coisas, por seria algo indefinido. Isto é uma transição adicional a partir do modo de pensamento anterior, fundamentalmente mitológico, para um novo modo de pensamento racional, principal característica do período grego arcaico, entre os séculos VIII e VI a.C. Este modo de pensamento foi resultado de novas condições políticas das cidades-estado gregas durante o século VI a.C.[9]”

Ocorre que novamente isso pra mim se parece muito com o conceito de Physis, uma realidade eterna e infinita, de onde tudo vêm, em constante transformação. Mais um processo ou uma ideia do que um elemento palpável.
Veja o que o Heráclito diz nesse texto:

“Heráclito atribuiu o fogo como princípio de todas as coisas. “O fogo transforma-se em água, sendo que uma metade retorna ao céu como vapor e a outra metade transforma-se em terra. Sucessivamente, a terra transforma-se em água e a água, em fogo.”

Mas Heráclito era mobilista e afirmava que todas as coisas estão em movimento como um fluxo perpétuo. Ou seja, usa o fogo apenas como símbolo de todo este movimento. Heráclito imaginava a realidade dinâmica do mundo sob a forma de fogo, com chamas vivas e eternas, governando o constante movimento dos seres….
“descemos e não descemos nos mesmos rios; somos e não somos…”

Então se misturarmos Heráclito e Anaximandro, também encontramos ensinamentos de Buda. Nesso ponto eu chego à conclusão que isso tem duas vias de pensamento
1) que não importa quem disse o quê, nem que nome tem os conceitos, nem seus autores, mas que a percepção de determinadas ideias é comum ao ser humano através da história e está simbolizado de muitas formas e nomeado de tantas outras. Arrisco achar que esta sabedoria superior se chama Dharma e permeia tudo que existe. E que podemos pensar que isso não está necessariamente ligado a nenhuma religião em particular.
2) que para efeito prático eu preciso aprender os nomes dos conceitos, aprender o nome dos seus autores, e principalmente aprender os conceitos com clareza para transitar entre todos os ramos da filosofia e suas relações, embora nunca serão explicações definitivas e nada fica “fechado”.

Eu posso ficar com essas duas vias de pensamento ao mesmo tempo e com mais outras que aparecerão no meu percurso filosófico. E trabalhar com essa abertura.

Não satisfeita ainda sobre arché, ou arkhé, vou buscar mais referências aqui:

http://www.dicpoetica.letras.ufrj.br/index.php/Arkhé

Já topo com “o bom e velho Castro” (risos) de início. Piadas à parte, ele traz luz e confusão juntas, para mim, ora vejam se isso não é maravilhoso?

“Anaximandro foi o primeiro a introduzir o termo princípio (1). Cabe notar, porém, que se usa aí o termo arkhé não no sentido de fundamento causal, mas no sentido de unidade que contém os contrários: “contrários são quente e frio, seco e úmido e outros. Segundo uns, da unidade que os contêm, procedem, por divisão, os contrários, como diz Anaximandro: ‘…pois tudo ou é princípio ou procede de um princípio, mas do ilimitado não há princípio …'” (2). Esta questão da arkhé é profundamente estudada por Martin Heidegger (3).
Manuel Antônio de Castro
Referências:
(1) SIMPLÍCIO. Física, 28, 13 (DK 1299), apud Pré-socraticos. Col. Os Pensadores. São Paulo: Abril Cultural, p.15.
(2) ARISTÓTELES. Física, I 4.187 a 20, apud Pré-socraticos. Col. Os Pensadores. São Paulo: Abril Cultural, p.15.
(3) “A sentença de Anaximandro”. In: Os pré-socráticos. Col. Os pensadores. S. Paulo: Abril Cultural, 1978. Outra tradução em português: “O dito de Anaximandro”. In: Caminhos de Floresta. Lisboa: Calouste Gulbenkian, 2002.

Para mim ele complica pois vai falar de uma unidade na dualidade e essas palavras eu encontrei no Budismo, e isso não estava nesse estudo ainda. Então ele toca em um assunto que me recorda muitos questionamentos mas que não eram da ordem da razão ainda, eram do âmbito religioso, devido à minha religião e prática Zen Budista de anos.
Aprendi que a questão de “superar” a dualidade, ir além dela é uma questão de uma *suposta* percepção que deve ocorrer na prática meditativa Zazen (usei a palavra suposta por uma série de motivos. Alguns vão entender). E eu tenho que trabalhar com essas duas coisas, o aprendizado racional, a religião-percepção dentro de mim.

E não, para mim religião não é mistério de fé, nem dogma, religião é uma percepção de um algo que está além da razão. E também entra como conhecimento. Então como essa percepção é de ordem pessoal, isso precisa ficar de lado para efeitos do estudo sistemático da filosofia, pelo menos um pouco de lado, para que não vire uma salada na minha cabeça. Tem que ficar só como memória, essas que aparecem na mente quando leio o que leio.

Novamento retorno ao texto do link do dicionário, dado acima:

“A palavra grega arché designa princípio como fundo sem fundo, o sem fundo fundante. Da arché, diz Platão no Fedro, nasce tudo o que nasce, enquanto, em si, não nasce de nada: não é em si, nem para si. Pois, se nascesse de algo, não seria arché, não seria o arcaico nascer. Como não tem nascimento, a arché é necessariamente (o) permanente” (1).
Referência:
(1) FAGUNDES, Igor. “A experiência ioruba do sagrado – Provocações para um rito de raspagem do Ocidente”. In: Revista Tempo Brasileiro, 194, Dialética em questão II. Rio de Janeiro,jul.-set., 2013, p. 140.”

Isso parece com o conceito de vazio do Zen Budismo, conceito este que não aprendi completamente pela via racional nem percebi pela via da percepção na meditação e na prática.

Mas continua se parecendo cada vez mais com physis. E se Arché é o permanente, a única coisa permanente no mundo é a impermanência, que eu havia entendido que poderia ser a physis.

Minha conclusão quanto ao estudo é que para mim não está clara a diferença entre physis e arché. Ambos podem ser um princípio no sentido de início, de origem. E podem ser também um princípio no sentido de processo de funcionamento, ou seja, um princípio que rege o processo de funcionamento de tudo que existe. E estão relacionados com a impermanência e com um algo eterno, que não tem princípio nem fim. Mas que tudo que surge e desaparece ocorre devido à um processo constante de organização e dissolução que opera segundo causas e condições, portanto tudo que ocorre, como disse a Monja Coen, co-surge simultâneamente e interdependentemente. Isso entra na pesquisa também porque ajuda muito a compreenção, clarifica.

Arché e physis falam de transformação, de uma eterna transformação de um algo onde nada é acrescentado nem retirado mas nunca permanece da mesma forma. Mais uma vez me lembro do sutra falando que todos os fenômenos são vazio-forma.

Tem muita coisa na memória, isso atrapalha e ajuda, ao mesmo tempo. Se não houver um certo esvaziar, não caberá nada novo, mas se não conservar minha experiência, as sinapses e conexões e os parâmetros e o estabelecimento de relações do meu raciocínio ficarão comprometidos. Esvaziar no peso, esvaziar de certezas, manter conteúdos e considerar memórias relevantes quando forem pertinentes. Acho que talvez seja por aí.

E minha conclusão enquanto atos, e não pensamentos, é composta por 3 aspectos:

1) eu continuo lendo e estudando isso tudo, e para tanto, no momento abandono essa consulta prévia que fiz na internet e volto para a leitura do livro Os Pré-socráticos da Coleção Os Pensadores, pois lá é uma organização que vou respeitar em vez de buscar “spoiler” na internet senão eu perco o fio da meada. Parei na página 13. Arché está na página 10, veja bem, e foi por isso que interrompi a leitura, para voltar um pouco e entender melhor. Eu vou começar da primeira página outra vez e ler o livro sem tentar parar para fazer pesquisa pois imagine o que vai acontecer quando eu quiser definir psyché, que apareceu na página 12? Para isso eu faço formação em Psicanálise e estou bem longe de entender com clareza. Vamos dar a cada coisa seu lugar, e deixar que os séculos me atravessem com calma.
Toda essa dificuldade de respostas me agradou pois eu posso ficar sem a certeza de nada e apreciar a aventura de estudar a filosofia enquanto sendo ela [um passeio por incertezas que conversam umas com as outras por diferentes ramos]. Por enquanto é o que me parece. Tão cliché: a graça está na busca, e não onde se pode chegar.

2) Eu continuo fazendo análise, isso é básico hoje em mim, porque não basta procurar fora de si, não me basta. Além de querer entender o mistério da vida e outros mistérios filosóficos, eu quero saber do meu inconsciente, do meu mistério, o meu enigma, e isso a filosofia não vai dar conta de trabalhar. E eu preciso de um outro para isso. Um outro que encontro na pessoa do analista. E disso faz parte continuar a formação em psicanálise, obviamente.

3) Eu continuo meditando para perceber algo que a razão não pode me oferecer, e não é para encontrar certeza nenhuma, é para perceber outra coisa que eu não sei nem o que é, que não é apenas meu inconsciente “pessoal e único” que o divã tangencia, mas algo que posso tangenciar apenas enquanto estou só, respirando, em silêncio. Um algo que não depende do outro e ao mesmo tempo caminha da direção da percepção de tudo outro que existe, a partir do silêncio, da observação. Disso faz parte também rezar. Sozinha.

Essas 3 coisas juntas são essenciais na minha busca.

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