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Hipocrisia

Hipocrisia é uma das coisas que mais me afasta. Mas ninguém está no mundo pra me agradar. Então, nada a fazer, a não ser tentar ser, eu mesma, o menos hipócrita o possível. Isso é bem difícil, porque ninguém consegue viver 100% de acordo com o que acredita durante 100% do tempo. Ninguém é 100% bom muito menos minimamente bom durante 100% do tempo. Podemos apenas continuar tentando. Aproximar os próprios atos do próprio discurso é um projeto pra uma vida toda. E passa décadas e a gente não mudou nada ou mudou alguns míseros milímetros, e o esforço é constante, de carregar um elefante nas costas todos os dias, carregar o ser.
Mas ter que manter uma posição ou um rótulo na sociedade é muito mais cansativo, extremamente exaustivo eu acho, pra mim. E piamente acredito que manter um status, rótulo ou imagem social nos leva à atos e discursos hipócritas. Acho que por isso que eu fico me recusando a me estabelecer como algo fixo e usando de auto-boicote sempre que estou engrenando em algo. Meu padrão é o comportamento errático, por mais que eu tenha me fixado em algumas práticas por anos, práticas diferentes, de religião, de profissão, de tudo, porque manter qualquer posição significava abrir mão de uma liberdade de ser. Uma liberdade de ser que eu nem tinha me apropriado ainda, mal liguei o f*da-se, tenho pouco tempo de experiência nisso, mas realmente não ter reputação nenhuma é um alívio. E ainda assim as pessoa nos imputam uma, a que elas querem, cada um segundo a leitura que fazem da gente. Ora, f*da-se. Pensem o que quiser. Eu já tentei ser tanta coisa, não sou exatamente nada específico, talvez de forma sempre incipiente. Ou se não superficial, porque em algumas coisas eu me entreguei bastante, então profunda mas sem durabilidade. Sou assim um pouco de tudo, como dizia o comediante “especialista em assuntos aleatórios”, e até sei de bastante coisa mas não forma um conjunto harmônico ou rotulável o meu conjunto de, na verdade, não-saberes, porque no fundo não sei nada de forma sistemática ou organizada, nada de forma… formal. Estou tentando fazer a sétima faculdade e já dou sinais de desgaste profundo, mesmo que gostando do curso. O outro curso de formação, suspendido temporariamente, mas sabe-se lá se vou voltar.
Sob determinados aspectos sei muito mas não serve pra nada específico, e quando serve não me adapto. Nem ao sistema, nem às pessoas e o modo delas transitarem pelo mundo. E pra falar a verdade, sob outro aspecto eu sei que não sei quase nada. Mesmo. Por isso sou eterna amadora, amando muito tanta coisa que faço mas nunca exatamente profissional. E na profissão, ou ainda, nas profissões, auto-didata de prática, de aprender fazendo, ah, como eu tenho sabedoria de tentativas e erros, eu tenho de sobra. E continuo errando. Por favor não esperem nada de mim além de um algo sem nome. Com 52 anos não dou sinais de me adaptar ao que quer que seja, a não ser à solidão, demorou mas chegou aceitar ser um número primo. Ímpar. Sem par. Sem par nenhum pra nada. Cansei de procurar pertencimento, eu não pertenço, nem à ninguém nem à lugar nenhum.
Estou muito cansada de tanto blá blá blá. Gente, o ser humano fala demais. Eu falei demais a vida toda, mas já andava ultimamente sem paciência pra conversa. Agora aqui sozinha e trancada em casa eu finalmente encontrei o silêncio e a paz de não ter que falar o tempo todo com alguém.
Agora posso escolher com quem falar um pouco, por Whatsapp, quer seja texto, audio ou chamada. São poucos cuja conversa me agrada por uns minutos. Poucos que não me fazem sentir “ai que preguiça dessa conversa”.
Conheço gente como eu que teve sucesso. Que conseguiu usar a inteligência, tirá-la da posição de potencial. Eu não. Sou só um grande potencial. E uma baciada de fracassos.
Acho que eu nunca quis sucesso, no fundo não, ainda que conscientemente houvesse um esforço nessa direção. O meu inconsciente não quer ter sucesso nesse mundo da forma como ele é muito menos ter sucesso nesse sistema social lamentável que nos levou à situação em que estamos.
Eu voto pelo estabelecimento do Facebook da miséria, vamos mostrar um pouco das nossas misérias, quem sabe uns momentos de mais verdade.
Não estão cansados, tremendamente cansados, desse teatro todo???
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Muito Antes de Physis e Arché

Este post se destina a guardar um determinado grupo de posts escritos no Facebook durante o carnaval, para que eu possa reler novamente em outro momento.
“Quando vemos áreas intocadas pelo homem, vemos que todas as espécies estão em harmonia, cada uma desempenhando uma função no ecossistema para mantê-lo, para manter a vida, de forma que possam sobreviver. Onde o ser humano chega, é tremendamente destrutivo, *usa* a natureza para explorar, retira até o talo sem preservar, sem se importar com as outras espécies, prejudicando a sobrevivência de todas, muitas ele mata para torná-las em elementos de consumo, até extinguir. Desta forma estamos destruindo nosso habitat e tudo que permite que continuemos a viver. Somos uma espécie burra, suicida e arrogante, porque ainda clamamos ser o topo da evolução de um planeta, que sem nós, seria um paraíso de abundância e paz. Somos as espécie mais tosca e destrutiva, nossa função no ecossistema é de parasitar e exterminar. Não fomos expulsos de paraíso nenhum, ainda estamos nele, destruindo-o vorazmente. Na verdade, nós é que estamos expulsando o paraíso.” 23 de fevereiro às 07:50

“A sexta extinção em massa está em curso, desta vez o homem é o asteroide. Nos últimos 40 anos exterminamos 60% da vida na terra, para consumir. Em uma década não terá mais água e comida para tantos bilhões de consumidores. Se tanto. Já é tarde demais. Os recursos destruídos levariam pelo menos 5 milhões de anos para se recuperarem, SE SUMÍSSEMOS NESTE SEGUNDO. Somos aqueles que nasceram para (mais…)

E se de repente pára?

~Deitada, quieta, no escuro, o coração bate tão forte que se faz sentir. E se de repente para? Um musculinho de nada, batendo teimoso, por décadas. E se de repente para? Essa maquininha, por que funciona? Uma bolota de carne, caída no mundo, sem manual. Ciente de que existe. Para que? Vá você dizer com certeza o que está fazendo aqui, por quê isso eu não tenho para dizer. Estou aqui. Estou fazendo, mas o que? Estou só pulsando. Só? Estou só. Na verdade nem isso. Eu só estou. Estou. Estou esse corpo, essa massinha de carne, com esse negocinho que pulsa. E se de repente para? Que pode ele diante do vendaval que assopra, da faca que fura, da terra que gira? Que paúra dessa fragilidade! E se de repente para? Coração, por favor, não bata assim tão forte, tão de mal jeito, que me faça percebê-lo, que me lembre que estou assim tão viva, que você bate assim tão perto da pele, tão fácil de rasgar, tão fácil de estragar. E se de repente para?

Physis e Arché, Último Capítulo

(ou A Lenda do Uno, ou A Crônica do Lavoisier Entediado. Feliz 2020!
~Era uma vez o Uno. Mas ser uno entediou-o profundamente. Nada de novo acontecia. Explodiu-se em trilhões de fragmentos, e seus pedaços passam a eternidade buscando a integridade, sem nunca alcançá-la, porque quando um pedacinho se lembra de onde veio e para onde vai, tudo já mudou novamente de lugar. Então ele se tranforma no processo e é sempre tomado novamente pelo esquecimento, porque o reencontro com o Uno não dura um segundo, e lhe remete ao tédio. Então o Uno ainda é uno, porque mesmo tão fregmentado, não teve como desagregar-se. Mas cada fragmento sempre pode esquecer-se e reviver novas velhas histórias, como se tudo fosse novo, novamente. Eternamente dormir e acordar, recordar-se e olvidar-se e adormecer novamente, para que jamais fique preso no tédio, jamais novamente. Todos os fragmentos ligados por um fio, para que tudo que cada um faça, se reflita no resto como novidade, garantindo que ele mesmo não recaia no tédio novamente, de ser um só, que nada tem a fazer. Na solidão de ser Uno, precisou ser zilhões de pedacinhos, para cada pedacinho ter a ilusão de que tem outros fragmentos para interagir. Mas coitados, são todos aspectos e manifestações deles mesmos, ou ainda, dele mesmo, e tão logo percebem, voltam ao tédio. Para serem brevemente reciclados no processo de esquecimento chamado enganosamente de “morte”. Tão apenas para se manifestarem outra vez, de outra forma, e viver novidades com outros esquecidos fragmentos eternamente reciclados.

ID

1952 Oil Nude Painting Signed D. V. B. Vintage Art Standing Female Model

Nem todo mundo sabe que tem duas letras diferentes, a música “O Que Será”, do Chico Buarque. Eu fico pensando que elas falam das coisas que não tem nome, do indizível, do inominável, de algo que talvez venha antes da linguagem e que portanto encontra representação e metáfora, mas não uma definição ou descrição exata, coisas com as quais as palavras só conseguem  fazer poesia.
Imagem: 1952 Oil Nude Painting Signed D. V. B. Vintage Art Standing Female Model

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