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Permita-me me reApresentar. Permita-me me representar. Encontrar uma representação para mim. Para um eu que carece de uma identidade fixa.

Hoje é meu aniversário. Completei cinquenta e dois anos de vida. Espero daqui por diante apenas ser. Ser. Sem ser isso ou aquilo, só ser. E a cada dia a gente muda, então escolho ser o que não é fixo. Prefiro ser essa metamorfose ambulante, junto com Raul Seixos dos Rios*.

Permita-me me reapresentar. Alguém pode pensar que me conhece, mas, só que não. Na verdade as pessoas sabem de mim muito pouco, o mesmo que eu. Eu mesma não sei muito de mim, eu digo do meu verdadeiro self. Falso self é fácil. É só colar em alguém e fazer o que a pessoa faz no universo dela. Mimetizando. Ou estar com muitos e ser o que acha que os outros querem que você seja. Eu acho. Não sei  se entendi direito. Ainda estou estudando. Não é questão de ser uma pessoa falsa, entenda. É possível ser sincero, falar a verdade, não mentir, ser espontânea e transparente e ainda assim não estar vivendo um verdadeiro self, estar vivendo uma delusão do eu. Isso eu falo de experiência própria, não de estudo. E ainda digo eu mesma:

O falso self de quem foi o sonho dos que não nos deixaram ser outra coisa que não o seu sonho, é uma coisa.

O falso self de quem foi o pesadelo dos que não nos deixaram ser outra coisa que não o seu pesadelo, é outra coisa.

O falso self pertence a quem não teve espaço para crescer, para pensar sozinho, para decidir sozinho, para realizar sozinho, para ter opinião própria, para ser levado em consideração como relevante em decisões importantes. Ou que não teve espaço para crescer enquanto indivíduo fora da bolha de realidade em que cresceu. Eu sinto assim, juntando que percebo com o que ouvi nas aulas.

O falso self é o que damos conta de apresentar quando o externo decide para nós o que devemos ser ou o que podemos ser, e não temos coragem de ser outra coisa, porque na nossa história até a construção dessa coragem ficou prejudicada. Falso self é o que damos conta de ser quando o mundo, vamos colocar assim, decidiu até onde temos permissão para ir, quando estamos em formação. Na infância. Ora, não é culpa de ninguém. Apenas é ou foi assim. Ninguém vem com manual de como atravessar a vida nem com manual de como criar filhos. E determinadas estruturas não vem só dos pais ou irmãos, envolve família próxima e distante, escola, amigos, professores, religião, sociedade. São inúmeras variáveis. Um ser é um confluência de inúmeras causas e condições. Ser mulher é apenas uma delas.

(Pausa para recomendar que façam pelo menos alguns anos de análise antes de reproduzir a espécie e perpetuar ciclos e repetições familiares que são da ordem do sofrimento).

Quando nascemos, nós mulheres (e acho que no caso dos homens também), o mundo já decidiu quem podemos ser e como devemos ser e a quantidade de espaço para expressão da própria importância ou protagonismo que teremos. Que teremos naquela casa, naquela escola, naquele grupo, naquelas épocas, naquelas cidades.

Há confluências de causas e condições que criam seres condenados a serem coadjuvantes, sombras, ou ainda bodes expiatórios e outra infinidade de coisas. Isso digo de observar a vida e a mim mesma, de observar os outros. Não de livros.

Há confluências de causas e condições que criam serem planejados para falhar, porque isso interessa de alguma forma no inconsciente dos envolvidos no processo de criação desse ser. É vago, eu sei. Mas estou falando do que sinto, do que observei, não falo com autoridade de estudo acadêmico ainda. Falo do lugar de quem fez muita análise, e ainda faço, e do lugar de quem assistiu muitas aulas mas ainda não conseguiu estudar de uma forma sistemática. Não espero estar certa, nem errada, são apenas as minhas impressões.

Ontem eu era uma criança patológica? Não sei. Talvez sim, talvez em parte. Infantil? certamente. E hoje? O que venho a ser? Exatamente! Apenas venho a ser. Não sei o que virá. Fiquei criança por muito tempo. Acordei num corpo de uma mulher de 52 anos, eu não conheço muito bem esta mulher. Por outro lado já sei bastante dela, mas tudo já está no ontem, esse tudo que sei, é passado e já mudei de lugar. Eu sou também os anos em que não me dei conta de mim, de quando não me dei por mim. Nada pode ser descartado porque tudo é experiência e faz parte do que sou. Mas hoje já sou algo que você não conhece.

Eu quero apenas a possibilidade de ser, seja o que for. Eu sou incerteza e espero me contradizer muitas vezes.

Do amanhã  não sei. Eu só sei o que escolho ser hoje.

No momento me sinto assim exatamente uma Vaca Profana. Escolhi essa música para me representar nesse momento, isso é meu, é genuíno.

Hoje à tarde, não sei. Não sei nem se estou viva na hora do almoço.

Para o caso de eu morrer a qualquer momento, obrigada a todos os seres que participaram da minha vida, que me trouxeram até este momento.

Vaca profana (Gal Costa)

Respeito muito minhas lágrimas
Mas ainda mais minha risada
Inscrevo, assim, minhas palavras
Na voz de uma mulher sagrada
Vaca profana, põe teus cornos
Pra fora e acima da manada
Vaca profana, põe teus cornos
Pra fora e acima da manada
Ê, ê, ê, ê, ê
Dona das divinas tetas
Derrama o leite bom na minha cara
E o leite mau na cara dos caretas
Segue a movida Madrileña
Também te mata Barcelona
Napoli, Pino, Pi, Paus, Punks
Picassos movem-se por Londres
Bahia, onipresentemente
Rio e belíssimo horizonte
Bahia, onipresentemente
Rio e belíssimo horizonte
Ê, ê, ê, ê, ê
Vaca de divinas tetas
La leche buena toda en mi garganta
La mala leche para los puretas
Quero que pinte um amor Bethânia
Stevie Wonder, Andaluz
Mas do que tive em Tel Aviv
Perto do mar, longe da cruz
Mas em composição cubista
Meu mundo Thelonius Monk’s blues
Mas em composição cubista
Meu mundo Thelonius Monk’s
Ê, ê, ê, ê, ê
Dona das divinas tetas
Quero o teu o leite todo em minha alma
Nada de leite mau para os caretas
Sou tímido espalhafatoso
Torre traçada por Gaudi
São Paulo é como o mundo todo
No mundo, um grande amor perdi
Caretas de Paris, New York
Sem mágoas, estamos aí
Caretas de Paris, New York
Sem mágoas, estamos aí
Ê, ê, ê, ê, ê
Vaca das divinas tetas
Teu bom só para o oco, minha falta
E o resto inunde as almas dos caretas
Mas eu também sei ser careta
De perto, ninguém é normal
Às vezes, segue em linha reta
A vida, que é meu bem, meu mal
No mais, as ramblas do planeta
Orchata de chufa, si us plau
No mais, as ramblas do planeta
Orchata de chufa, si us
Ê, ê, ê, ê, ê
Deusa de assombrosas tetas
Gotas de leite bom na minha cara
Chuva do mesmo bom sobre os caretas
La mala leche para los puretas
(Nada de leite)
Nada de leite mau para os caretas
(E o resto)
E o resto inunde as almas dos caretas
Chuva do mesmo bom sobre os caretas

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